Apostas retiraram até R$ 141 bilhões da atividade econômica em 2025 e agravaram endividamento, dependência e problemas de saúde mental
A expansão das bets no Brasil transformou as apostas on-line em um problema que ultrapassou os limites do entretenimento. Estudos recentes apontam efeitos sobre a renda das famílias, o consumo, o endividamento e a saúde mental de milhões de brasileiros.
O governo federal decidiu proibir a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das bets no país. A medida provisória editada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 25 de setembro também determinou o encerramento das plataformas autorizadas.
Com a medida, novos depósitos foram proibidos e os apostadores têm até 5 de outubro para retirar voluntariamente o saldo disponível. A partir do dia 6, sites e aplicativos deverão sair do ar. Valores remanescentes terão de ser devolvidos aos usuários.
A decisão ocorre após anos de crescimento acelerado das apostas pela internet e em meio ao aumento das evidências sobre seus efeitos econômicos e sociais. Dados oficiais mostram que milhões de brasileiros passaram a comprometer parte da renda com jogos acessíveis pelo celular.
Dinheiro fora do consumo
Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades, da FEA da Universidade de São Paulo, estimou que as bets retiraram entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões da atividade econômica brasileira somente em 2025.
O impacto calculado pelos pesquisadores corresponde a uma perda equivalente a 0,9% a 1,1% do Produto Interno Bruto. Segundo o estudo, o montante representaria entre 40% e 50% de todo o crescimento da economia brasileira registrado naquele ano.
A dimensão do impacto ocorre porque o dinheiro destinado às apostas deixa de financiar outros gastos das famílias. Recursos que poderiam chegar ao comércio e aos serviços, por meio da compra de alimentos, roupas, lazer e outros produtos, passam a alimentar o mercado de jogos.
A perda não termina na compra que deixa de ser feita. A redução do consumo pode atingir fornecedores, indústria, trabalhadores e arrecadação pública. O estudo da USP estimou perdas tributárias entre R$ 31,1 bilhões e R$ 54,8 bilhões decorrentes da menor atividade econômica.
Em 2025, as famílias brasileiras tiveram perda líquida estimada em R$ 62,5 bilhões nas bets. O valor considera o dinheiro destinado às apostas descontados os prêmios que retornaram aos jogadores e ajuda a dimensionar a renda efetivamente transferida às plataformas.
O efeito aparece no orçamento doméstico. Levantamento da NielsenIQ mostrou que, entre os lares apostadores que substituíram despesas para acomodar as bets, 47% reduziram espaço destinado a alimentos e 45,3% disseram que as apostas afetaram contas fixas.
Renda comprometida
A transferência de renda para as plataformas afeta principalmente quem possui menor capacidade financeira para absorver perdas. Quanto menor a renda disponível, maior pode ser o impacto de uma aposta sobre despesas básicas e compromissos assumidos pela família.
Dados da Confederação Nacional do Comércio (CNC) também apontaram mudança no padrão de consumo. Entre os apostadores pesquisados, 23% reduziram gastos com vestuário e 19% diminuíram despesas em supermercados para manter recursos destinados às apostas.
A CNC estimou ainda que, entre janeiro de 2023 e março de 2026, a inadimplência associada às apostas retirou cerca de R$ 143 bilhões do comércio varejista. A entidade calculou que aproximadamente 270 mil famílias chegaram à inadimplência severa.
A situação pode alimentar um ciclo de endividamento. Quando o dinheiro usado para apostar vem da renda destinada ao pagamento de contas ou do crédito, a perda deixa de atingir apenas o patrimônio do jogador e passa a comprometer parcelas futuras do orçamento familiar.
O quadro se agrava quando o apostador tenta recuperar valores perdidos com novas apostas. A sucessão de perdas pode transformar uma dificuldade financeira inicial em dívidas maiores, com reflexos no consumo, nas relações familiares e na capacidade de pagamento.
Milhões em risco
Os impactos financeiros se somam a um problema crescente de saúde pública. Em 2023, mais de 28 milhões de brasileiros haviam apostado nos 12 meses anteriores à pesquisa usada pelo Ministério da Saúde para dimensionar os efeitos dos jogos no país.
Desse contingente, 10,9 milhões apresentavam padrão de jogo considerado de risco ou problemático. O dado não significa que todos tenham dependência, mas revela uma população expressiva exposta a comportamentos capazes de provocar prejuízos financeiros e sociais.
Estimativas nacionais apontam ainda cerca de 1,4 milhão de brasileiros com critérios compatíveis com transtorno do jogo. Reconhecido como transtorno comportamental, o problema envolve perda de controle e manutenção das apostas mesmo diante de consequências negativas.
O risco é maior entre os mais vulneráveis. Segundo dados apresentados pelo Ministério da Saúde, a possibilidade de desenvolver dependência é três vezes maior entre pessoas em situação socioeconômica vulnerável e 150% maior entre jogadores on-line.
A facilidade oferecida pelas plataformas ampliou a exposição. Diferentemente de formas tradicionais de jogo, as bets permitem apostar pelo celular durante todo o dia, com pagamentos instantâneos, resultados rápidos e mecanismos que estimulam a repetição das apostas.
Pressão sobre a saúde
Os efeitos já aparecem na rede pública. Entre 2018 e 2025, os atendimentos relacionados ao jogo patológico e a problemas com apostas no Sistema Único de Saúde (SUS) cresceram cerca de 140%. O Ministério da Saúde projeta aumento superior a 100% até 2028.
Estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde estimou em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado aos jogos no Brasil. Desse total, R$ 30,6 bilhões estão relacionados a danos à saúde, incluindo depressão, tratamentos e mortalidade.
Os valores não representam despesas efetivamente desembolsadas pelo SUS. Se trata de uma estimativa econômica dos prejuízos sociais relacionados aos problemas de saúde associados ao jogo, incluindo perda de qualidade de vida e mortes prematuras.
O Ministério da Saúde passou a tratar a dependência em apostas como questão de saúde pública e ampliou a estrutura de atendimento. O SUS passou a oferecer teleatendimento específico para pessoas com problemas relacionados a jogos, além de apoio aos familiares.
O transtorno do jogo está associado a ansiedade, depressão, alterações de sono e humor, perda de controle, isolamento e conflitos familiares. Os problemas também podem alcançar o trabalho e estar acompanhados de maior consumo de álcool e outras drogas.
Dívidas e suicídio
A consequência mais grave aparece na relação entre transtorno do jogo e comportamento suicida. Dados apresentados pelo Ministério da Saúde indicam que a mortalidade por suicídio é 15 vezes maior entre pessoas com transtorno do jogo do que na população geral.
As dificuldades financeiras estão entre os principais fatores associados ao suicídio entre apostadores. Perdas sucessivas, endividamento e tentativas de recuperar o dinheiro podem ampliar sentimento de culpa, vergonha, desesperança e sensação de falta de saída. Não existe, porém, levantamento nacional capaz de determinar quantos suicídios no Brasil foram provocados especificamente por dívidas com bets.
A ausência de uma contagem nacional não diminui a dimensão do risco. Estudos usados para orientar políticas públicas mostram associação relevante entre jogo problemático e suicídio, principalmente quando perdas financeiras provocam endividamento grave.
Jovens na mira
A exposição às apostas começa cedo. Pesquisa citada pelo Ministério da Saúde mostrou que 20,4% dos estudantes consultados já haviam apostado pela internet. O contato com jogos pode começar aos 11 anos, apesar das restrições legais ao acesso de menores.
Entre meninos do terceiro ano do Ensino Médio, a proporção dos que já haviam realizado apostas chegou a 49,7%. Os números reforçam a preocupação com uma geração exposta simultaneamente ao esporte, às redes sociais, à publicidade e às plataformas digitais.
A associação das bets com futebol, influenciadores e grandes campanhas publicitárias contribuiu para tornar as apostas parte do cotidiano. Durante a expansão do setor, marcas passaram a ocupar camisas de clubes, transmissões esportivas e espaços de grande alcance nas redes sociais.
Impacto coletivo
Os dados mostram que o problema não se restringe ao apostador. Quando parte da renda familiar deixa de financiar alimentação, comércio, serviços ou lazer, os efeitos alcançam empresas, trabalhadores, arrecadação tributária e outros setores da atividade econômica.
O impacto também chega às famílias. A dependência pode provocar conflitos, dívidas, perda de patrimônio e comprometimento de despesas essenciais. Em casos graves, o comportamento compulsivo interfere nas relações pessoais, no trabalho e na saúde mental.
Ao justificar a proibição, o presidente Lula classificou a questão como de interesse público e sustentou que os danos ultrapassaram os benefícios econômicos da atividade. A medida também prevê reforço na fiscalização para impedir a migração de apostadores para plataformas clandestinas.
O desafio agora será impedir que o fim das plataformas autorizadas fortaleça o mercado ilegal. O governo prevê bloqueio de sites, aplicativos e meios de pagamento, além de fiscalização integrada para identificar empresas que continuarem oferecendo apostas no país.
A proibição encerra uma fase de rápida expansão das bets, mas não elimina os efeitos acumulados. Dívidas, transtornos relacionados ao jogo e famílias afetadas continuarão exigindo políticas de prevenção, tratamento e recuperação financeira mesmo após a saída das plataformas.
Leia também
CNM/CUT abre seleção para criar plataforma pedagógica
Votar é participar: escolha nas urnas fortalece a democracia
CNM/CUT participa da construção de propostas para energia
Fausto debate futuro do trabalho com metalúrgicos
Sindmetal-PE volta à Aluvid em ato de repúdio