Com o aumento da demanda por aço, os baixos custos do país provarão ser mais atrativos
Apesar da longa e complicada batalha de Lakshmi Mittal neste ano para aquisição da Arcelor, uma luta que ele venceu aumentando sua oferta pela produtora de aço de Luxemburgo para US$ 34 bilhões, ele provavelmente não teve muito tempo para pensar na precisa natureza das operações da Arcelor na América do Sul.
Agora que Mittal está se voltando para o planejamento sério do formato da Arcelor Mittal, a nova empresa resultante da fusão, ele quase certamente está dedicando muito tempo nas novas possibilidades que emergem para sua empresa nesta parte do mundo.
Sob o comando de Guy Dolle, o ex-executivo-chefe da Arcelor que deixou a nova empresa resultante, a Arcelor ampliou diligentemente suas operações no Brasil nos últimos três anos, se tornando no ano passado a maior produtora de aço do país.
O fator chave para produzir aço no Brasil é seu baixo custo.
Devido aos baixos salários e a abundância de oferta de minério de ferro de baixo custo, sai por cerca de US$ 200 produzir uma tonelada de aço semi-acabado no Brasil, em comparação ao equivalente de US$ 290 na China, US$ 300 nos Estados Unidos, US$ 320 no Japão e US$ 330 na Alemanha.
Dos grandes países produtores de aço, os únicos locais onde os custos para produção de aço são mais baixos são na Índia e Ucrânia, onde o custo equivalente é de US$ 170, e na Rússia, onde é US$ 150.
Os custos explicam por que o Brasil se tornou um país importante nos últimos anos para produção de placas de aço semi-acabado e o envio delas do Brasil para outros países, como os da Europa Ocidental, Ásia ou Estados Unidos, para ser transformada em aço acabado por meio de operações de processamento especializadas que estão relativamente próximas dos clientes -por exemplo, na indústria automotiva.
Nas operações de aço de Mittal anteriores à aquisição da Arcelor, a América do Sul mal figurava em suas atividades de produção. Apesar da Mittal Steel, a companhia de aço existente de Mittal, produzir em quatro continentes, ela se concentrava na Europa, Estados Unidos, Ásia Central e África, com apenas atividade de produção no México.
'Enquanto Lakshmi Mittal considera o futuro da Arcelor Mittal, ele pode muito bem considerar as operação da Arcelor no Brasil como sendo uma das partes mais valiosas da empresa', disse Peter Marcus, sócio diretor da World Steel Dynamics, uma consultoria americana.
Nos planos que provavelmente serão considerados pela Arcelor Mittal nos próximos meses, a produção brasileira de aço da empresa poderá aumentar de cerca de 10 milhões de toneladas no ano passado para aproximadamente o dobro até 2013. Isto será resultado de uma série de iniciativas, incluindo uma nova siderúrgica perto de Vitória -onde fica a principal instalação da Arcelor Mittal no Brasil - e uma ampliação das atividades da empresa na produção de seções de aço longo no Brasil, seções que podem ser usadas, por exemplo, no setor de construção.
José Campos, um executivo brasileiro do setor de aço e ex-executivo da Arcelor que agora chefia as operações brasileiras da Arcelor Mittal e suas atividades de aço plano na América do Sul, também está considerando outros planos para acrescentar investimentos nas demais etapas do processo - como produção de aço em sofisticadas operações de enrolamento para uso em utensílios domésticos ou na indústria automotiva brasileira e dos países vizinhos.
Ele acha que a demanda de aço na América Latina (incluindo México), de cerca de 50 milhões de toneladas por ano, provavelmente crescerá anualmente cerca de 6% nos próximos cinco a seis anos.
Mas grande parte de qualquer nova capacidade de aço no Brasil quase provavelmente será desviada para a produção de placas, possivelmente para abastecer alguns dos centros produtores de aço mais caros da Arcelor Mittal na Europa Ocidental (particularmente França e Luxemburgo). Nos próximos dois anos, parte destas instalações de produção poderão ser transformadas em 'centros de acabamento' na produção de aço, mantendo suas operações de enrolamento ou processamento, mas com a produção de aço semi-acabado sendo virtualmente suspensas.
Campos disse que a demanda global por placas (uma parte importante do que Vitória atualmente produz) provavelmente aumentará de cerca de 35 milhões de toneladas neste ano para 54 milhões de toneladas em 2015. As operações da Arcelor Mittal no Brasil poderão ter um grande papel no atendimento desta demanda adicional e possivelmente também se transformará em uma parte altamente importante do grande império de aço de Mittal. (Peter Marsh) (Tradução para UOL : George El Khouri Andolfato) (Financial Times, 03.10.2006)