Entidade se posiciona diante da alta recente dos preços e aponta alternativa que combina soberania energética, emprego e desenvolvimento industrial
O aumento recente dos combustíveis no Brasil reacendeu o debate sobre os fatores que impactam os preços e, principalmente, sobre quais caminhos podem garantir estabilidade, justiça ao consumidor e desenvolvimento econômico. Para a Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), enfrentar práticas abusivas é necessário, mas insuficiente diante de um cenário mais amplo, que envolve questões internacionais e estruturais da economia brasileira.
Nos últimos dias, operações coordenadas pela Polícia Federal, com apoio da Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e da Agência Nacional do Petróleo (ANP), miraram práticas irregulares em postos de combustíveis em diversos estados. A ação busca coibir aumentos considerados abusivos, aqueles sem justificativa técnica ou que geram vantagem excessiva ao fornecedor, conforme previsto no Código de Defesa do Consumidor.
Ao mesmo tempo, o cenário internacional pressiona os preços. A escalada de conflitos no Oriente Médio elevou o valor do barril de petróleo acima dos 100 dólares, impactando diretamente o custo dos combustíveis no Brasil e ampliando a instabilidade no mercado.
Diante desse quadro, a CNM/CUT se posiciona no sentido de que o país avance em uma estratégia mais ampla, que vá além da regulação de preços e enfrente a raiz do problema: a dependência do petróleo e das oscilações externas.
Para o presidente da CNM/CUT, Loricardo de Oliveira, o momento exige visão estratégica e decisão política. “O governo acerta ao combater práticas abusivas e cartéis, mas o Brasil precisa ir além. Temos uma grande oportunidade de investir em alternativas energéticas, como o etanol e os veículos híbridos, que podem reduzir custos, gerar empregos e fortalecer a indústria nacional”, afirma.
Na mesma linha, o presidente da IndustriALL Brasil, Aroaldo Silva, reforça a necessidade de uma transição energética que dialogue com a realidade produtiva do país e preserve empregos.
“Defendemos o protagonismo do Brasil nessa transição energética. Temos tecnologia nacional para dar resposta aos desafios da descarbonização e, ao mesmo tempo, precisamos preservar os empregos e a renda no país. Por isso, defendemos a coexistência das diferentes rotas tecnológicas, com fortalecimento das cadeias produtivas já existentes”, disse Aroaldo.
“Enquanto classe trabalhadora, defendemos a coexistência das diversas rotas tecnológicas, e temos clareza de que os biocombustíveis, assim como os veículos híbridos flex, possuem potencial de relacionar a agenda da descarbonização com a geração de empregos com renda de qualidade”, completou.
Para o secretário-geral da CNM/CUT e coordenador do segmento automotivo na entidade, Renato Almeida, o Renatinho, o carro híbrido a etanol é uma solução estratégica para o Brasil.
“Nós já temos base industrial, conhecimento tecnológico e uma cadeia consolidada de biocombustíveis. Investir nessa tecnologia significa gerar empregos de qualidade, garantir conteúdo local e posicionar o país na vanguarda da transição energética, com uma solução adaptada à nossa realidade”.
Metalúrgicos já constroem alternativa com o híbrido etanol
A defesa dessa agenda não é recente. Os metalúrgicos da CUT vêm construindo esse debate junto a universidades, indústria, setor público e centros de pesquisa, consolidando uma proposta concreta de desenvolvimento tecnológico e industrial para o país.
Um marco desse processo foi a assinatura de uma carta de cooperação mútua no encontro “Híbrido Etanol: O Motor do Futuro – Uma agenda de desenvolvimento, emprego e sustentabilidade”. O documento reuniu representantes de universidades, empresas, sindicatos e gestores públicos com o objetivo de impulsionar estudos, parcerias e inovação em torno do carro híbrido a etanol.
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A iniciativa aponta para a construção de convênios de pesquisa, intercâmbio institucional e desenvolvimento tecnológico em fase pré-competitiva, etapa em que diferentes atores colaboram para acelerar soluções que, posteriormente, chegam ao mercado.
O processo envolveu desde centros de pesquisa, como a UNESP, até grandes empresas do setor automotivo e da cadeia do etanol, além de representantes dos trabalhadores organizados. Para os participantes, a cooperação entre esses setores é fundamental para viabilizar tecnologias acessíveis, sustentáveis e adaptadas à realidade brasileira.
“O debate também destacou caminhos inovadores, como veículos híbridos flex movidos a etanol e até soluções que utilizam o combustível para geração de hidrogênio, ampliando a eficiência energética e reduzindo a pegada de carbono”, comenta Loricardo.
Alternativa concreta para o Brasil
A CNM/CUT avalia que o Brasil possui vantagens competitivas únicas, especialmente na produção de biocombustíveis, que podem ser articuladas com a reindustrialização e a transição energética.
Nesse sentido, a renovação da frota brasileira, aliada ao incentivo à produção nacional e à inovação tecnológica, pode impulsionar cadeias produtivas inteiras, da indústria automotiva ao setor agrícola.
Outro ponto central é a necessidade de integrar essa agenda à política industrial do país. A entidade defende que o tema seja prioridade nas discussões com o governo federal, especialmente no âmbito do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), envolvendo conteúdo local, inovação e fortalecimento da indústria nacional.
Para a CNM/CUT, o debate sobre combustíveis não pode se limitar ao curto prazo. É preciso construir uma alternativa estruturante que combine soberania energética, redução de custos ao consumidor e geração de emprego e renda.
“Ao apontar o etanol e os veículos híbridos como parte dessa solução, os metalúrgicos colocam no centro do debate uma proposta que une desenvolvimento econômico, sustentabilidade e autonomia nacional, e que pode reposicionar o Brasil como referência global em energia limpa e mobilidade”, ressalta Loricardo.