Escrito por: Cadu Bazilevski

Estudo do Ipea aponta viabilidade econômica para redução de jornada

Estudo apresentado para direção da CNM/CUT indica viabilidade econômica da redução e destaca ganhos sociais da medida

Cadu Bazilevski
O estudo avalia que o Brasil vive um momento propício para discutir a redução da jornada de trabalho

A redução da jornada semanal de trabalho no Brasil pode elevar o custo por hora trabalhada sem provocar impactos relevantes no custo total das empresas. A avaliação foi apresentada nesta terça-feira (7) à tarde por Felipe Vella Pateo, técnico do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), durante o primeiro dia da reunião do Conselho Diretivo da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), realizada na sede da CUT, em São Paulo. O estudo reforça a viabilidade econômica da medida em um cenário de mercado aquecido.

Com base em dados do emprego formal de 2023, o levantamento estima que a mudança de 42 para 40 horas semanais resultaria em aumento médio de 7,8% no custo da hora trabalhada. Em um cenário mais amplo, com jornada reduzida para 36 horas, esse percentual poderia chegar a 17,6%. Ainda assim, a pesquisa aponta que o impacto final sobre os custos das empresas tende a ser limitado e varia conforme o perfil de cada setor da economia.

Para o presidente da CNM/CUT, Loricardo de Oliveira, a discussão sobre a redução da jornada precisa estar conectada com o futuro do trabalho e com o papel da organização sindical.

“A redução da jornada é uma pauta estratégica para a classe trabalhadora e está diretamente ligada à qualidade de vida, à saúde e à distribuição mais justa do tempo de trabalho. Os dados mostram que é possível avançar sem prejuízo para a economia. O desafio agora é transformar esse debate em mobilização concreta, dialogando com a base e pressionando para que essa mudança aconteça de fato no Brasil”, disse.

Contexto favorável
O estudo avalia que o Brasil vive um momento propício para discutir a redução da jornada de trabalho. O mercado apresenta sinais de aquecimento e houve ganhos reais do salário mínimo nos últimos anos, criando condições mais favoráveis para mudanças estruturais nas relações de trabalho.

Além disso, experiências internacionais e históricas analisadas indicam que reduções de jornada não geraram impactos negativos relevantes sobre o emprego. Ao final da apresentação, Felipe reforçou a viabilidade da proposta. “Os efeitos sobre os custos são relativamente baixos e podem ser absorvidos pelas empresas”, afirmou.

Quem mais se beneficia com a mudança
O estudo mostra que a redução da jornada atinge diretamente trabalhadoras e trabalhadores mais vulneráveis do mercado de trabalho. Em geral, são pessoas com menor renda, menor escolaridade e vínculos mais instáveis. Ao reduzir o tempo de trabalho, a medida contribui para melhorar as condições de vida e enfrentar desigualdades estruturais históricas.

Felipe destacou que os dados permitem um diagnóstico mais preciso sobre os grupos beneficiados. “Os trabalhadores com jornadas mais longas concentram piores indicadores de renda e estabilidade”, falou. Segundo ele, a política tem potencial para corrigir distorções persistentes no mercado de trabalho brasileiro.

Impacto por setores
Os efeitos da redução da jornada variam conforme a estrutura de cada atividade econômica. Setores com menor incidência de jornadas longas, como serviços financeiros, saúde e educação, tendem a apresentar aumentos mais modestos no custo da hora trabalhada, situados entre cerca de 2% e 4%, segundo o estudo.

Já setores com maior presença de jornadas acima de 40 horas, como agropecuária, confecção, fabricação de móveis e construção civil, podem registrar aumentos próximos de 10%. Ainda assim, o levantamento ressalta que esse impacto não se traduz automaticamente em aumento equivalente no custo total das empresas, devido à composição diversa das despesas em cada segmento.

Custo total menor
Um dos principais pontos do estudo é que o aumento do custo da hora trabalhada não implica, necessariamente, elevação proporcional dos custos operacionais. Isso ocorre porque a participação da mão de obra varia entre os setores e, em muitos casos, não representa o principal componente das despesas.

Os dados indicam que, mesmo em atividades com aumento relevante no custo por hora, o impacto total costuma ficar abaixo de 5%. Em diversos casos, não ultrapassa 3%, o que demonstra capacidade de absorção por parte das empresas, especialmente em um cenário de mercado de trabalho aquecido e com maior dinamismo econômico.

Pequenas empresas
A pesquisa também aponta a necessidade de atenção às pequenas empresas, que podem enfrentar mais dificuldades na adaptação à nova jornada. Nesse sentido, o estudo indica que essas empresas precisam se adaptar à modernidade do trabalho, incorporando inovação, tecnologia e novas formas de organização produtiva.

A estimativa é que até 4 milhões de vínculos estejam concentrados em segmentos que demandariam medidas específicas de proteção ou transição.

Entre as alternativas discutidas estão políticas de incentivo à digitalização, acesso a crédito com juros mais baixos e iniciativas voltadas à modernização produtiva. O objetivo é garantir que a redução da jornada ocorra de forma sustentável, sem comprometer a atividade econômica e a geração de empregos.