Encontro da IndustriALL reuniu sindicatos do Nordeste para debater tecnologia, empregos, direitos, formação e organização dos trabalhadores
Fortaleza recebeu, nos dias 11, 12 e 13 de agosto, o Seminário Regional de Educação e Organização para Negociação Coletiva da Reestruturação Produtiva. A atividade integrou o Projeto UtoU, iniciativa da IndustriALL Global Union.
A Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT) participou do encontro ao lado de entidades sindicais do Nordeste. Durante três dias, dirigentes debateram caminhos para fortalecer a organização e a negociação coletiva.
Automação, inteligência artificial, novas tecnologias, mudanças nas jornadas e pejotização estiveram no centro dos debates. As discussões trataram dos impactos dessas transformações sobre empregos, direitos e organização dos trabalhadores.
Formação e negociação
Para Amparo, secretária de Formação da CNM/CUT, o seminário colocou em debate um desafio que já faz parte do cotidiano sindical: compreender as transformações no mundo do trabalho e preparar os sindicatos para enfrentar seus impactos.
“Esse seminário reforça um desafio fundamental para o movimento sindical: preparar nossos sindicatos para as transformações que já estão acontecendo no mundo do trabalho”, afirmou Amparo durante a atividade realizada na capital cearense.
Segundo a dirigente, as mudanças tecnológicas precisam ser acompanhadas de proteção aos trabalhadores. “Nós não somos contra a tecnologia, mas defendemos que os trabalhadores não podem pagar a conta dessas mudanças”, destacou Amparo.
Para ela, conhecer a realidade das fábricas é essencial para construir respostas nas mesas de negociação. “A formação sindical e negociação coletiva precisam caminhar juntas”, defendeu a secretária de Formação da CNM/CUT.
Essa articulação deve ajudar os sindicatos a negociar proteção aos empregos, qualificação profissional, melhores condições de trabalho e garantia de direitos diante das transformações que já atingem diferentes setores da indústria.
Amparo também relacionou esse processo às reivindicações que mobilizam os trabalhadores. “Também precisamos avançar nas nossas pautas: redução da jornada sem redução salarial e fim da escala 6x1”, ressaltou a dirigente.
Tecnologia e empregos
Para Esdras Vitorino, dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de Pernambuco e da CNM/CUT, a incorporação de novas tecnologias exige atenção permanente dos sindicatos aos impactos sobre os postos de trabalho dentro das fábricas.
“Onde antes eram necessários quatro ou cinco trabalhadores, ou até mais, hoje um robô pode fazer esse trabalho com um ou dois operadores. Isso diminui os postos de trabalho e prejudica a organização sindical”, explicou Esdras.
A redução dos postos de trabalho também repercute na capacidade de organização da categoria. A saída de trabalhadores das empresas pode significar perda de associados e enfraquecimento da presença sindical nos locais de trabalho.
Nesse cenário, formação e troca de experiências ajudam os sindicatos a construir respostas coletivas. Para Esdras, convenções e acordos devem ser instrumentos de proteção aos empregos e aos direitos diante das mudanças nos processos produtivos.
“O seminário nos ajuda a pensar como atuar na construção das convenções e dos acordos coletivos para evitar a perda de postos de trabalho, e combater a pejotização, que vem prejudicando bastante os trabalhadores”, pontuou Esdras.
Contra a pejotização
A pejotização foi apontada como outro desafio para a organização sindical. Ao transformar trabalhadores em prestadores de serviços, esse modelo pode retirar direitos, fragilizar vínculos e dificultar a organização coletiva nos locais de trabalho.
“Existe uma falsa sensação de que o trabalhador é dono do próprio negócio, empreendedor ou empresário, quando, na prática, ele acaba renunciando a direitos. Tudo isso também enfraquece o movimento sindical”, observou Esdras.
Para enfrentar esse cenário, o fortalecimento das negociações coletivas ganha papel estratégico. Convenções e acordos podem estabelecer proteções diante das mudanças nas empresas, ampliar direitos e assegurar conquistas aos trabalhadores.
“Uma convenção coletiva forte e um acordo coletivo podem garantir mais direitos aos trabalhadores, inclusive avançar no fim da jornada 6x1 e na redução da jornada sem redução de salário”, frisou o dirigente pernambucano.
Organização coletiva
Os debates em Fortaleza reforçaram que as transformações produtivas não podem ficar restritas às decisões das empresas. Para os sindicatos, os trabalhadores precisam participar das discussões sobre mudanças que afetam empregos e direitos.
A formação sindical assume, nesse contexto, papel decisivo para compreender as novas formas de produção e preparar a intervenção dos representantes dos trabalhadores. O objetivo é transformar conhecimento e organização em força nas negociações.
Ao reunir sindicatos nordestinos durante três dias, o seminário abriu espaço para compartilhar experiências e estratégias. A articulação regional busca fortalecer respostas coletivas diante de transformações que atingem diferentes categorias.
“O Projeto UtoU fortalece exatamente essa construção: conhecimento, troca de experiências e organização para ampliar nossa capacidade de negociação coletiva”, acrescentou Amparo ao avaliar a contribuição da iniciativa.
E ela finaliza: “Para a CNM/CUT, unidade, formação e negociação coletiva são fundamentais diante da reestruturação produtiva. O desafio é garantir que os avanços tecnológicos ocorram sem perda de empregos, precarização das relações de trabalho e retirada de direitos”.