Comitê Mundial da Daimler Truck debate geopolítica, tarifas dos EUA e amplia representação internacional com entrada da África do Sul
Representantes das trabalhadoras e dos trabalhadores da Daimler Truck de diversos continentes se reuniram entre os dias 16 e 18 de junho, em Haus Lautenbach, na cidade de Gernsbach, estado de Baden Württemberg, na Alemanha, para discutir os desafios globais da indústria automotiva.
Antes da abertura oficial dos debates, os membros do Comitê Mundial e do Comitê Europeu dos Trabalhadores a Mercedes-Benz realizaram a eleição para a composição dos próximos quatro anos da Executiva. Maicon Michel, secretário de Relações Internacionais da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), foi reconduzido ao cargo e destacou o avanço da representatividade internacional dentro da estrutura global dos trabalhadores da empresa.
“Na gestão anterior eu era o único membro de fora da Europa. Agora somos dois representantes não europeus e dois representantes negros na Executiva do Comitê Mundial”, destacou. A principal novidade da nova composição é a entrada da África do Sul na executiva internacional, medida considerada estratégica para ampliar a presença do chamado Sul Global nos espaços de decisão da companhia.
Essa mudança reforça um processo que vem sendo construído ao longo dos últimos anos dentro do comitê. Historicamente dominadas por representantes europeus, as estruturas internacionais de representação dos trabalhadores da indústria automobilística passaram a incorporar, de forma gradual, dirigentes de países emergentes, especialmente daqueles que desempenham papel relevante na produção global de veículos e componentes.
Sobre a reunião do Comitê
A reunião do Comitê Mundial abordou temas que vão dos impactos das tensões geopolíticas e das tarifas comerciais impostas pelos Estados Unidos da América à transição tecnológica para veículos de emissão zero e à reorganização das cadeias produtivas internacionais.
Segundo Maicon Michel, as consequências das medidas adotadas pelo governo do presidente Donald Trump foram um dos temas centrais do encontro. “Todo mundo está sofrendo os impactos dessas medidas”, afirmou. De acordo com o dirigente sindical, os participantes avaliaram os reflexos das tarifas sobre a produção industrial, os investimentos e a competitividade das operações espalhadas pelos diferentes continentes.
Modelo de cogestão
A reunião também serviu para apresentar aos participantes o funcionamento do sistema alemão de cogestão, considerado uma das principais referências mundiais em relações de trabalho. Nesse modelo, representantes dos trabalhadores participam diretamente dos conselhos de supervisão das grandes empresas, compartilhando decisões estratégicas com acionistas e executivos.
Segundo Maicon, os trabalhadores ocupam 49% das cadeiras nos conselhos de supervisão, enquanto os representantes da empresa e dos acionistas concentram 51%. Embora a maioria permaneça com o capital, a proximidade entre as duas representações garante forte capacidade de influência política e institucional das trabalhadoras e dos trabalhadores.
“Você consegue construir articulações para impedir decisões equivocadas antes mesmo que elas cheguem à votação”, explicou o dirigente. As discussões envolvem temas como investimentos, volume de produção, organização do trabalho, desenvolvimento de novos produtos e planejamento industrial de longo prazo.
Influência internacional
Um dos principais nomes dessa estrutura é Mikael Brecht, presidente do Comitê Mundial e do Comitê Europeu dos Trabalhadores da Mercedes-Benz e vice-presidente do Conselho de Supervisão da companhia. Considerado uma das lideranças sindicais mais influentes da indústria alemã, Brecht desempenha papel decisivo na interlocução entre trabalhadores e direção empresarial.
O secretário da CNM/CUT afirmou que a representação brasileira conquistou posição de destaque dentro dessa estrutura internacional. Segundo ele, sua reeleição consolida a participação do Brasil entre os principais interlocutores do comitê e amplia a influência dos trabalhadores brasileiros nas discussões globais da companhia.
A projeção internacional também está ligada às iniciativas desenvolvidas em parceria entre a CNM/CUT, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e o sindicato alemão IG Metall. Entre elas está um programa de formação voltado à cadeia produtiva automotiva, atualmente em seu segundo módulo.
Reconhecimento mundial
O trabalho desenvolvido pelo Comitê Mundial recebeu reconhecimento internacional no ano passado durante um encontro que reúne representantes dos conselhos de trabalhadores das principais empresas alemãs. Segundo Maicon, a iniciativa foi considerada uma das experiências internacionais mais bem-sucedidas do movimento sindical contemporâneo.
“O diferencial foi conseguir levar para países do Sul Global direitos relacionados à organização e à representação dos trabalhadores que antes estavam concentrados na Europa”, enalteceu.
Para Maicon, a experiência demonstra que a internacionalização das relações de trabalho pode ocorrer sem ignorar as diferenças econômicas e sociais entre os países. A inclusão de representantes de regiões historicamente menos presentes nos centros de decisão fortalece a capacidade de diálogo e amplia a legitimidade das estruturas globais de representação.
Baden Württemberg
O encontro acontece em uma das regiões industriais mais importantes da Europa. Baden Württemberg abriga grandes fabricantes automotivos e concentra parte significativa da produção metalúrgica alemã. A região também é reconhecida pelo protagonismo histórico nas negociações coletivas conduzidas pelo sindicato IG Metall.
Foi ali que surgiu a jornada semanal de 28 horas, considerada uma das mais importantes conquistas trabalhistas da Alemanha nas últimas décadas. Para Maicon, o simbolismo do local reforça o caráter estratégico das discussões realizadas durante esta semana.
“Estamos reunidos em uma região que ajudou a construir algumas das principais referências mundiais de negociação coletiva, organização sindical e participação dos trabalhadores nas decisões empresariais”, concluiu.