Escrito por: Cadu Bazilevski

Metalúrgicas do Nordeste defendem fim da 6x1 e mais mulheres nos espaços de decisão

Formação da FEM Nordeste reuniu dirigentes sindicais para discutir jornada, igualdade de gênero e fortalecimento da organização das trabalhadoras

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Durante a formação, as participantes discutiram os desafios enfrentados pelas trabalhadoras

A defesa da redução da jornada, do fim da escala 6x1 e da ampliação da participação das mulheres nos espaços de decisão marcou o Encontro sobre Gênero da FEM Nordeste, realizado na sexta-feira (17), em Guarabira (PB). A atividade reuniu dirigentes sindicais da região para debater os impactos da organização do trabalho na vida das mulheres e reforçar estratégias de atuação sindical voltadas à igualdade de direitos e ao combate às desigualdades.

O encontro também promoveu reflexões sobre autonomia econômica, divisão sexual do trabalho, violência no ambiente laboral, igualdade salarial e fortalecimento da negociação coletiva. A programação contou com palestra da economista Marilane Teixeira e participação das diretoras da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), Maria de Jesus, secretária de Mulheres, e Kelly Galhardo, secretária de Políticas Sociais.

Organização das mulheres
Para Maria de Jesus, o encontro representou a retomada de um importante espaço de formação e articulação das mulheres metalúrgicas. Segundo ela, fazia cerca de dez anos que a categoria não realizava uma atividade presencial voltada exclusivamente para esse debate, o que tornou a iniciativa ainda mais significativa para as dirigentes da região.

“Depois de muita luta e dedicação das nossas companheiras, tivemos a oportunidade de realizar o curso regional com as mulheres da região Nordeste”, afirmou.

Durante a formação, as participantes discutiram os desafios enfrentados pelas trabalhadoras para ampliar a participação feminina nas mesas de negociação e enfrentar diferentes formas de violência presentes no mundo do trabalho. “Falamos dos desafios que nós, mulheres, temos para enfrentar o capitalismo, o machismo, a misoginia e todo tipo de violência no mundo do trabalho”, destacou.

Maria também ressaltou a importância da renovação das lideranças sindicais e da presença dos homens nas discussões sobre igualdade de gênero. Em sua opinião, o fortalecimento do movimento passa pela construção coletiva das soluções.

“O encontro presencial faz diferença. A gente dialoga diretamente com as pessoas, conhece a realidade de cada região e consegue trabalhar a partir das especificidades que cada uma traz”, afirmou.

Jornada e qualidade de vida
Na palestra, a economista Marilane Teixeira defendeu que a discussão sobre o fim da escala 6x1 deve considerar a realidade vivida pelas mulheres, que acumulam o trabalho remunerado com as responsabilidades domésticas e de cuidado.

“Submetidas à jornada 6x1, muitas mulheres encaram sua única folga como um período dedicado integralmente ao trabalho doméstico e aos cuidados familiares. O tempo das mulheres é absorvido, em sua totalidade, pela esfera doméstica”, afirmou.

Segundo Marilane, reduzir a jornada para 40 horas semanais e adotar a escala 5x2 não significa afastar as mulheres do mercado de trabalho, mas garantir condições para o autocuidado, o desenvolvimento pessoal e uma distribuição mais equilibrada das responsabilidades familiares.

“A redução da jornada para 40 horas semanais e a adoção da escala 5x2 não devem ser interpretadas como uma desculpa para que as mulheres se afastem do trabalho remunerado. Esta é uma luta histórica para garantir mais tempo livre, autocuidado e desenvolvimento pessoal”, disse a economista.

Marilane lembrou que dados do IBGE mostram que as mulheres continuam dedicando aproximadamente o dobro do tempo dos homens aos afazeres domésticos e ao trabalho de cuidados. Para ela, a conquista da redução da jornada precisa vir acompanhada de mudanças culturais.

“Precisamos aproveitar esse debate para conscientizar a sociedade de que o tempo livre masculino também deve ser compartilhado com as tarefas domésticas. Caso contrário, a redução da jornada poderá resultar apenas em uma sobrecarga ainda maior para as mulheres”, afirmou.

Marilane também relacionou a redução da jornada ao enfrentamento do adoecimento provocado pelas condições atuais de trabalho, marcadas por metas excessivas, monitoramento constante e crescimento dos casos de assédio moral e sexual. “A redução da jornada ganha centralidade porque estamos diante de um cenário de exaustão física e mental, além do aumento dos casos de assédio moral e sexual”, afirmou.

Luta coletiva
Ao avaliar a realização do encontro no Nordeste, Kelly destacou que as desigualdades enfrentadas pelas mulheres variam conforme a realidade de cada região e exigem respostas construídas a partir das experiências das próprias trabalhadoras. “Realizar esse evento em Pernambuco nos faz entender que a luta das mulheres não é igual em todo lugar. Aqui a desigualdade bate mais forte. A mulher é chefe de família, é trabalhadora da indústria e ainda responde pelo cuidado da casa”, afirmou.

Segundo Kelly, o encontro fortaleceu o debate sobre autonomia econômica, igualdade salarial, violência e trabalho de cuidados, oferecendo instrumentos para ampliar a atuação sindical nas bases. “Saímos daqui com mais força, mais conhecimento e mais ferramentas de luta. Quando a gente se junta, a pauta fica mais forte”, afirmou.

A dirigente reforçou que a CNM/CUT defende políticas públicas capazes de reduzir as desigualdades enfrentadas pelas mulheres, como ampliação da oferta de creches, igualdade salarial, combate à violência política e geração de empregos de qualidade.

“A CNM defende creche, igualdade salarial que saia do papel, fim da violência política e emprego de qualidade. Porque não tem indústria forte com mulher enfraquecida”, afirmou.

De acordo com Kelly, a construção de relações mais igualitárias depende da participação de toda a categoria. “Essa não é uma luta só das mulheres. É uma luta de todos. A participação dos companheiros na atividade foi muito importante e mostrou que esse debate precisa envolver homens e mulheres”, concluiu.