Escrito por: CNM CUT

Novo presidente da Toyota quer que ela volte ao básico

O novo presidente da Toyota Motors Corp., Akio Toyoda, tem uma mensagem de cautela para a gigante fundada por seu avô: ela ficou sofisticada demais. 

Segunda-feira, três diretores que ajudaram a conduzir a Toyota nos últimos quatro anos - entre eles Mitsuo Kinoshita, um dos principais arquitetos da expansão global da empresa - anunciaram suas aposentadorias. Isso abre caminho para a reforma planejada por Toyoda para a maior montadora do mundo. A expectativa é que ele se concentre, principalmente, em abandonar a kakushin, ou "mudança revolucionária", termo do atual presidente, Katsuaki Watanabe, para a mudança da maneira como a Toyota projetou seus carros e fábricas nos últimos dez anos. A kakushin trouxe avanços tecnológicos, mas levou a carros de produção mais cara. 

Toyoda, de 52 anos, também está trabalhando para arrumar a estratégia de preço que pôs a companhia em rota de colisão com concessionárias nos Estados Unidos, que acharam que os carros estavam ficando caros demais, segundo pessoas a par da situação. 

Montadoras estão em dificuldades em todo o mundo, e a Toyota está muito mais forte que rivais como a General Motors Corp., que flerta com a concordata. Ainda assim, prevê-se que a Toyota vá anunciar seu primeiro prejuízo líquido anual em 59 anos. 

Toyoda pode fechar fábricas na América do Norte e no Japão, onde a Toyota engordou em anos recentes e agora está com capacidade fabril em excesso. A empresa também pode ter suas primeiras demissões em massa no Japão desde 1950, quando 3.000 funcionários foram demitidos. 

Toyoda não culpa só a recessão, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. Ele está mandando um recado de que seus antecessores agravaram o problema ao desviarem de idéias centrais de parcimônia e eficiência para se focar em lucro. 

Entre outras coisas, Toyoda deve distanciar-se de apetrechos tecnologicamente sofisticados como um sistema de ar-condicionado a energia solar para o novo Prius. Além disso, uma complexa tecnologia nova de linha de montagem que mergulha a carcaça dos carros numa piscina de tinta - apelidada de shabu shabu, nome de um fondue japonês - está sob o microscópio. 

A Toyota divulgou um comunicado dizendo que as decisões de sua direção no passado foram apropriadas para sua época. Num comunicado assinado por Watanabe, Kinoshita e Toyoda, a companhia declinou responder a questões específicas do Wall Street Journal. O documento diz que a empresa achava que algumas questões não refletiam a situação real, mas não quis aprofundar. 

Toyota é o primeiro membro da família fundadora da Toyota a assumir o comando em 14 anos. "Acho que a Toyota provavelmente se expandiu um pouco demais para competir com as montadoras americanas", disse o pai dele, Shoichiro Toyoda, que presidiu a montadora nos anos 80. "Há muitas coisas que precisamos analisar." 

A indicação de Toyoda como presidente depende de aprovação dos acionistas em junho. Watanabe, cuja nomeação como presidente do conselho foi anunciada junto com a promoção de Toyoda, preside a companhia desde junho de 2005. 

A mudança é um reflexo do sentimento de crise dentro da Toyota, que atravessa um dos períodos mais duros em seus 70 anos. Na última década, ela se expandiu com rapidez. Sob a direção de Watanabe, de 67 anos, a Toyota divulgou um lucro recorde de 1,72 trilhão de ienes, ou US$ 18,2 bilhões, no ano fiscal encerrado em março de 2008. No ano passado, ela ultrapassou a GM e se tornou a maior do mundo em vendas. 

Agora, está prevendo um prejuízo de 350 bilhões de ienes no corrente ano fiscal. E não só as vendas estão caindo como também os lucros estão sendo prejudicados pela valorização do iene, que faz com que dinheiro ganhado no exterior valha menos quando convertido para a moeda japonesa. 

Num recente sinal de problemas, numa reunião em fins do ano passado, Watanabe apelou para que executivos de nível médio "compartilhem as dores" - ou seja, cortem seus salários - e depois os deixou boquiabertos ao pedir-lhes que considerem comprar um carro novo para ajudar a melhorar as vendas, segundo uma pessoa que participou da reunião. Um número sem precedentes de carros não vendidos forçou a Toyota a estocá-los nos estacionamentos da Fuji Speedway, uma empresa de sua propriedade que administra o autódromo perto do Monte Fuji onde ocorre o grande prêmio de Fórmula 1. 

Koichi Shimokawa, professor de administração da Universidade Tokai Gakuin, em Nagóia, diz que a Toyota estava tão focada em se tornar a maior montadora do mundo que deixou de cortar a produção rapidamente no ano passado, quando a crise econômica chegou aos EUA, seu maior mercado. 

"A Toyota estava confiante demais em sua competitividade e eles simplesmente continuaram com o pé no acelerador", diz ele. 

Fonte: Valor