Mobilização atinge diversas plantas em todo país, denuncia zeramento do EBITDA e exige valorização, igualdade de direitos e negociação nacional com a empresa
No mesmo mês em que a Gerdau celebra seus 125 anos de história, trabalhadoras e trabalhadores de diversas unidades da empresa no Brasil inteiro realizaram um movimento nacional unificado em protesto contra a redução da Participação nos Lucros e Resultados (PLR). A paralisação atingiu plantas em diferentes estados e expôs a insatisfação da categoria diante da política adotada pela empresa, que zerou o EBITDA, indicador que tem peso direto no cálculo da PLR, impactando de forma severa a remuneração variável do conjunto dos trabalhadores.
A empresa justificou o resultado alegando impactos do tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos brasileiros. No entanto, a taxação não se aplica aos aços longos produzidos pela Gerdau no Brasil, o que reforça, segundo as entidades sindicais, a contradição entre os números apresentados pela companhia e a realidade vivida nas fábricas, onde a produção segue em ritmo elevado e, em muitos casos, com horas extras frequentes.
Para o presidente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), Loricardo de Oliveira, o movimento nacional expressa a unidade da categoria em defesa de direitos históricos. “Os trabalhadores estão na luta por melhorias em um momento importante na questão da PLR, lutando por um acordo nacional que é fundamental para que haja igualdade de direitos nas plantas, uma luta importante para a CNM”, afirmou.
Loricardo destacou que a mobilização tem como eixo central a garantia de condições dignas de vida e trabalho para a categoria. “Hoje a discussão da PLR, que foi diminuída pela empresa, está no centro do debate. O que nós exigimos é a garantia de que aquilo que foi produzido pela empresa seja distribuído entre os trabalhadores”, completou o dirigente, reforçando o papel da CNM/CUT na articulação nacional da luta.
Saiba como foram os atos no país
No Recife (PE), a paralisação foi total na Gerdau Aço Norte, e no setor de Corte e Dobra. Segundo Virgínio Balbino, coordenador da Rede Gerdau e secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de Pernambuco, a mobilização refletiu a insatisfação dos trabalhadores diante da falta de respeito da empresa. “A gente fez uma manifestação maravilhosa. Paramos 100% da fábrica. O que nos ajudou a ter esse êxito foi a revolta dos trabalhadores da Aço Norte, devido à falta de respeito e de atenção que o grupo da Gerdau teve com os seus trabalhadores”, disse.
Virgínio relatou que houve setores inteiros com PLR praticamente zerada. “Tivemos células zeradas, trabalhadores que não receberam nem 10% do salário. Teve gente que ganhou 1%, 3%, quando antes a gente tirava um salário e meio. Hoje a gente tira porcentagens mínimas das mínimas”, denunciou. Ele também ressaltou que a pauta entregue à empresa inclui a unificação nacional, o aumento e a equiparação do vale-alimentação e mudanças urgentes no plano de saúde, que hoje penaliza principalmente os trabalhadores lesionados.
O presidente do Sindmetalpinda, André Oliveira, fez duras críticas à postura da Gerdau em Pindamonhangaba, destacando que a situação na unidade é ainda mais grave do que em outras plantas. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos, a empresa estaria fechando parte da fábrica mesmo havendo demanda, com o objetivo de ampliar suas margens de lucro, o que impacta diretamente a manutenção das atividades e dos postos de trabalho na região.
Para André, a contradição entre os lucros divulgados pela empresa e o tratamento dado às trabalhadoras e trabalhadores é evidente. “São números que a empresa enche o peito para mostrar para os acionistas, para quem ela destina milhões, foram R$ 240 milhões só para a Gerdau SA, mas na hora de manter a atividade e os empregos aqui na Cilindros em Pinda ela fala que não tem como, na hora de melhorar a PLR não tem como. Para discutir os problemas no convênio médico, não tem como. Quem realmente produz o lucro da empresa, que são os trabalhadores, ficam de escanteio”, afirmou.
No Rio Grande do Sul, o Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de São Leopoldo e Região (STIMMMESL) realizou uma assembleia com as trabalhadoras e trabalhadores da Gerdau na planta de Sapucaia do Sul para discutir o resultado da Participação nos Lucros e Resultados (PLR). O presidente do Sindicato, Valmir Lodi, classificou o momento como um dos mais difíceis desde a implantação do programa. “Desde 1995, quando a Gerdau implantou a PLR, hoje é um dia muito triste, pois quem produz a riqueza da empresa, quem torna a Gerdau uma das maiores produtoras de aço do Brasil, recebeu uma miséria de Participação de Lucros e teve trabalhadores que não ganharam a PLR”, lamentou.
Valmir Lodi também criticou o atual modelo de negociação e defendeu mudanças estruturais no processo. Segundo ele, a empresa passou a controlar a escolha dos representantes e utiliza critérios pouco transparentes. “Hoje não tem mais essa eleição para escolher o representante dos trabalhadores. É a própria empresa que escolhe, olha que absurdo. E esse sistema não dá mais, ninguém sabe o que é o EBITDA, por exemplo. Queremos desvincular o EBITDA das metas e negociar o que está ao alcance dos trabalhadores”, declarou, reforçando a necessidade de abrir uma negociação coletiva.
Alexandro da Silva Braga, o Balacka, coordenador da Rede Gerdau e secretário de Gênero, Juventude e Raça do Sindicato dos Metalúrgicos de São Leopoldo e Região, ressaltou que a paralisação teve caráter nacional e envolveu plantas como Pindamonhangaba (SP), Sorocaba (SP), Charqueadas (RS), unidades da Bahia, além de Pernambuco. “Todas essas plantas fizeram um ato em protesto contra o zeramento, ou seja, contra o resultado do EBITDA”, destacou.
Segundo Balacka, o problema está no modelo atual do programa Metas, que atribui 50% de peso ao EBITDA, prejudicando trabalhadores mesmo em plantas com produção elevada. “Desde 1995, quando foi implantado o Metas, nunca tinha acontecido isso. Teve áreas que zeraram, mesmo com produção alta, horas extras e demanda forte. A gente quer um novo modelo de PLR, com valor mínimo garantido e que o EBITDA não prejudique os trabalhadores”, explicou.
Ele ressaltou ainda que a assembleia em Sapucaia do Sul (RS) deu legitimidade para o sindicato chamar a empresa à mesa de negociação e alertou que, se não houver avanço, novos movimentos poderão ser construídos de forma nacionalmente organizada.
“A mobilização unificada reforça que a luta dos metalúrgicos da Gerdau é coletiva, nacional e construída a partir da unidade entre as diversas plantas. Para as entidades sindicais, o movimento deixa claro que os trabalhadores não aceitam pagar a conta sozinhos, nem ver direitos reduzidos enquanto a empresa mantém seus resultados. Por isso, seguirão organizados e mobilizados até que a Gerdau reconheça, na prática, quem sustenta a produção e os lucros no dia a dia: as trabalhadoras e os trabalhadores”, finaliza Loricardo.
*Com informações do Sindicato dos Metalúrgicos de Pindamonhangaba, Moreira César e Roseira, e Sindicato dos Metalúrgicos de São Leopoldo e Região