28 de abril é data que reforça luta por saúde e segurança no trabalho
Data une memória das vítimas e alerta para prevenção de acidentes e doenças entre trabalhadoras e trabalhadores
Publicado: 28 Abril, 2026 - 14h31
Escrito por: Cadu Bazilevski | Editado por: Érica Aragão
O 28 de abril marca o Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho e o Dia Nacional em Memória das Vítimas de Acidentes e Doenças do Trabalho. A data mobiliza governos, empresas e a classe trabalhadora em torno da prevenção, além de promover reflexão sobre condições laborais que ainda expõem milhões de pessoas a riscos evitáveis.
A escolha do dia remete a um episódio trágico ocorrido em 1969, nos Estados Unidos da América, quando uma explosão em uma mina matou dezenas de profissionais. O caso se tornou símbolo internacional da luta por melhores condições de trabalho e por legislações mais rigorosas voltadas à proteção da vida e da saúde.
No Brasil, os números seguem alarmantes. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho indicam que o país registra centenas de milhares de acidentes de trabalho por ano, com milhares de mortes. Em 2025, o Brasil registrou mais de 750 mil acidentes e 3,2 mil mortes no trabalho, evidenciando falhas graves na prevenção e segurança em diversos setores.
A indústria concentra grande parte das ocorrências, muitas vezes associadas à precarização e à falta de investimentos em segurança. O cenário reforça a necessidade de ampliar políticas públicas e fortalecer mecanismos de controle e proteção.
O secretário de Saúde do Trabalhador, Previdência Social e Meio Ambiente da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), Francisco Jonaci de Almeida, destacou o papel da mobilização sindical na defesa da vida e dos direitos da classe trabalhadora. Para ele, a data deve servir como instrumento de cobrança e organização coletiva.
“Para o movimento sindical, o 28 de abril é um dia de memória, mas também de luta. Não podemos naturalizar acidentes e adoecimentos que, na maioria das vezes, são evitáveis. É preciso reforçar a prevenção e cobrar responsabilidade das empresas”, afirmou.
Valorização da vida
Ao lembrar as vítimas, o presidente da CNM/CUT, Loricardo de Oliveira, reforçou que o enfrentamento passa pela valorização da vida acima de metas e lucros. Ele defendeu mais fiscalização e fortalecimento das organizações sindicais como caminhos para reduzir os índices de adoecimento e mortes.
“Quando lembramos as vítimas de acidentes e doenças do trabalho, estamos dizendo que essas vidas não podem ser tratadas como números. É um chamado à ação para fortalecer a organização sindical, ampliar a fiscalização e garantir mais e mais direitos. Trabalhar não pode ser sinônimo de adoecer ou morrer”, declarou.
Para Loricardo, é necessário enfrentar a lógica que coloca o lucro acima das condições de trabalho, prática ainda presente em diversos setores da economia e que contribui diretamente para o agravamento dos índices.
“O que está em disputa é o modelo de produção. Não podemos aceitar que metas e resultados financeiros estejam acima da vida das trabalhadoras e trabalhadores. É preciso inverter essa lógica”, afirmou.
O dirigente também destacou que o fortalecimento da atuação sindical é decisivo para ampliar conquistas e garantir ambientes mais seguros e dignos. “Quando o sindicato é forte, a fiscalização melhora, os direitos avançam e a vida é preservada. Essa é a base para transformar a realidade nos locais de trabalho”, disse.
Causas e prevenção
A médica e pesquisadora Maria Maeno alertou que os dados oficiais sobre acidentes e doenças do trabalho não refletem a totalidade da realidade brasileira, já que consideram apenas trabalhadores vinculados à Previdência Social.
“Os números elevados de acidentes e doenças relacionados ao trabalho são restritos aos segurados da Previdência. Ficam de fora trabalhadores informais e servidores públicos, o que indica que a situação real é ainda mais grave”, explicou.
Ela também destacou a forte subnotificação dos casos, especialmente nos registros que dependem da emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho por parte das empresas. “Existe uma subnotificação muito grande. Muitas vezes o empregador não emite a comunicação, principalmente nos casos de adoecimento, em especial nas doenças mentais relacionadas ao trabalho”, afirmou.
Segundo a especialista, o principal desafio está em enfrentar as causas estruturais dos problemas, que já são amplamente conhecidas, mas continuam sendo negligenciadas. “As causas dos acidentes e adoecimentos estão nas condições e na organização do trabalho. São situações conhecidas, com soluções existentes, mas que não são aplicadas porque envolvem custos e falta de compromisso”, destacou.
Maeno ressaltou que acidentes graves continuam ocorrendo de forma recorrente, mesmo com conhecimento técnico acumulado para evitá-los. “Quedas de altura, eletrocução e soterramento seguem acontecendo ano após ano. São situações previsíveis, mas as medidas de prevenção não são implementadas de forma adequada”, disse.
Saúde no centro das políticas
Ela também chamou atenção para o crescimento das doenças ocupacionais, tanto físicas quanto mentais, associadas ao ritmo e às exigências do trabalho contemporâneo. “O adoecimento físico está ligado a esforço excessivo e condições inadequadas, enquanto o mental decorre de pressão por metas, jornadas extensas e assédio. São fatores conhecidos, mas pouco enfrentados”, afirmou.
A especialista defendeu ainda mudanças estruturais nas políticas públicas, com foco na prevenção e na centralidade da saúde nas decisões econômicas. “Se a origem do adoecimento está no modelo de produção, não faz sentido atuar apenas sobre os efeitos. É preciso colocar a saúde no centro das políticas econômicas e sociais, como prevê a Constituição”, concluiu.
Memória e mobilização
Mais do que uma data simbólica, o 28 de abril reforça a necessidade de políticas públicas efetivas, investimento em prevenção e fortalecimento da cultura de segurança. Medidas como fornecimento de equipamentos de proteção, treinamento adequado e garantia de condições dignas são fundamentais para reduzir riscos no ambiente de trabalho.
Jonaci também chamou atenção para o avanço dos problemas relacionados à saúde mental no trabalho, cenário que tem se agravado de forma significativa nos últimos anos em diferentes categorias profissionais.
O dirigente lembra que o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025. “Esse é u recorde histórico que reflete o impacto de modelos de gestão marcados por metas abusivas, jornadas exaustivas e insegurança no emprego”, disse.
Em sua opinião, as mudanças nas relações de trabalho, impulsionadas pela precarização e pela intensificação do trabalho, exigem respostas mais firmes do Estado, dos empregadores e do movimento sindical.
“O local de trabalho precisa ser um espaço de proteção à vida, e não de risco. Hoje, além dos acidentes, enfrentamos o crescimento das doenças ocupacionais, especialmente as relacionadas à saúde mental, fruto de jornadas exaustivas, pressão por metas e condições inadequadas”, destacou.
Jonaci reforçou ainda que a organização coletiva segue como instrumento essencial para enfrentar esse cenário e garantir avanços concretos na proteção da saúde das trabalhadoras e trabalhadores.
“A mobilização sindical é fundamental para pressionar por mudanças reais. Sem organização, os problemas continuam invisibilizados e os direitos seguem sendo desrespeitados dentro dos locais de trabalho”, encerrou.
