MENU

Após denúncia de agressão, paralisação na Midea em MG mobiliza 1200 trabalhadores

Protesto em fábrica de Pouso Alegre cobra apuração rigorosa de denúncia envolvendo gestor estrangeiro e funcionário do setor de qualidade

Publicado: 24 Junho, 2026 - 12h19

Escrito por: Cadu Bazilevski | Editado por: Érica Aragão

Reprodução
notice
Cerca de 1200 trabalhadoras e trabalhadores da fábrica da Midea paralisaram as atividades

Cerca de 1200 trabalhadoras e trabalhadores da fábrica da Midea, em Pouso Alegre, no Sul de Minas Gerais, paralisaram as atividades nesta terça-feira (23) em protesto contra uma denúncia de agressão física envolvendo um funcionário e um gestor da multinacional chinesa. A mobilização ocorreu em frente à unidade industrial e foi organizada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Pouso Alegre (SMPA), que cobra a apuração rigorosa dos fatos e providências por parte da empresa.

Segundo informações divulgadas por Francisco dos Santos, o Piauí, presidente do sindicato, a suposta agressão ocorreu no dia 15 de junho. O trabalhador, que atua no setor de qualidade, teria sido atingido durante uma ocorrência relacionada à interrupção de uma linha de produção. A denúncia provocou indignação entre os empregados e levou à realização de uma assembleia na porta da fábrica, onde todas e todos manifestaram repúdio ao episódio e defenderam a adoção de medidas que garantam um ambiente de trabalho respeitoso e seguro.

O episódio que motivou a paralisação ocorre em um contexto de denúncias mais amplas já apresentadas pelo SMPA à direção da empresa. Recentemente, o presidente informou ter recebido relatos de assédio moral, abuso sexual, pressão excessiva por metas, mudanças de setor sem comunicação prévia e episódios de violência envolvendo trabalhadores da unidade.

De acordo com Piauí, o caso mais grave relatado envolveu uma agressão física praticada por um líder contra um trabalhador durante o expediente. A entidade afirma que ouviu diversos empregados, reuniu informações sobre o ocorrido e formalizou a denúncia junto à empresa, cobrando providências para garantir a integridade física e psicológica dos trabalhadores.

Ainda de acordo com o presidente do SMPA, a violência é incompatível com qualquer ambiente de trabalho que respeite a dignidade humana e os direitos dos trabalhadores. A entidade informou que seguirá acompanhando as investigações e cobrando a responsabilização dos envolvidos, além da adoção de medidas capazes de prevenir novos episódios de assédio, abuso ou agressão dentro da fábrica.

Não é assédio, é violência
A secretária de Igualdade Racial da CNM/CUT, Christiane Aparecida dos Santos, participou da mobilização em solidariedade ao trabalhador agredido e reforçou a gravidade da denúncia. Segundo ela, a agressão não pode ser relativizada nem tratada como um simples caso de assédio moral. “É inadmissível que um trabalhador saia de casa cedo, à tarde ou à noite para trabalhar, dedicar a maior parte do seu tempo a uma empresa e acabar sofrendo agressão dentro de um ambiente que deveria ser seguro”, afirmou.

Para a dirigente, episódios como o denunciado exigem apuração rigorosa e responsabilização dos envolvidos. Christiane destacou ainda que situações de violência física no ambiente de trabalho precisam ser tratadas com a seriedade que o caso requer. “A gente não pode tratar isso de forma alguma como assédio moral. Temos que tratar como lesão corporal mesmo, que é um crime”, declarou.

Chris lembrou que, durante a mobilização realizada na portaria da fábrica, os trabalhadores aprovaram o estado de greve e manifestaram repúdio ao episódio, reforçando a solidariedade ao companheiro que denunciou a agressão. Segundo ela, a resposta coletiva da categoria demonstra que os trabalhadores não estão dispostos a aceitar qualquer forma de violência ou desrespeito dentro da empresa.

A secretária de Igualdade Racial da CNM/CUT destacou que a adesão dos trabalhadores à paralisação demonstrou o grau de indignação existente dentro da fábrica. Segundo a dirigente, no primeiro turno de trabalho praticamente 100% dos trabalhadores aderiram à manifestação, evidenciando que a insatisfação com o episódio é compartilhada pelo conjunto da categoria.

Para Chris, a forte participação dos empregados mostra que os trabalhadores do chão de fábrica não aceitam situações de violência e exigem providências efetivas por parte da empresa.

Solidariedade da FEM-CUT/MG
O presidente da Federação Estadual dos Metalúrgicos de Minas Gerais (FEM-CUT/MG), Marco Antônio, participou da mobilização e manifestou apoio aos trabalhadores da Midea. Em sua fala, o dirigente destacou o papel do sindicato na organização da categoria e na defesa de melhores condições de trabalho.

Marco Antônio ressaltou que a atuação sindical vai além das campanhas salariais e envolve pautas permanentes relacionadas à qualidade de vida dos trabalhadores, como a redução da jornada de trabalho sem redução de salários e o combate a escalas consideradas prejudiciais à saúde e ao convívio familiar.

O dirigente afirmou que situações de desrespeito e violência não podem ser naturalizadas dentro dos ambientes de trabalho. Segundo ele, o movimento sindical seguirá acompanhando o caso e cobrando mudanças na postura da empresa para garantir relações de trabalho baseadas no respeito e na dignidade humana.

“Não vamos aceitar, de forma nenhuma, situações como essa. Se necessário, o movimento sindical vai continuar mobilizado até que a empresa aprenda a tratar os trabalhadores de forma digna e respeitosa”, declarou.

Ao encerrar sua participação, Marco Antônio parabenizou as trabalhadoras e os trabalhadores pela mobilização, e reforçou a importância da organização coletiva para enfrentar problemas no ambiente de trabalho e conquistar avanços para a categoria.

A importância da organização coletiva
A mobilização contou com a participação do presidente da Central Única dos Trabalhadores de Minas Gerais (CUT-MG), Jairo Nogueira, que prestou solidariedade às trabalhadoras e aos trabalhadores, e destacou a importância da organização coletiva diante de situações de violência e assédio no ambiente laboral.

“Nós estamos aqui para vender a nossa mão de obra e não para ser humilhados. Se nós abaixarmos a cabeça e não conversarmos entre nós, o que aconteceu vai virar rotina. Aqui dentro da empresa tem trabalhadora e trabalhador brasileiro”, afirmou.

Para o dirigente sindical, a resposta dos trabalhadores demonstra que a categoria não está disposta a aceitar qualquer forma de abuso ou constrangimento. Jairo ressaltou que o respeito à dignidade humana deve prevalecer em todas as relações de trabalho e que episódios dessa natureza precisam ser enfrentados com firmeza pelas entidades representativas e pelos próprios trabalhadores.

Alerta às mulheres
Durante a assembleia, o presidente da CUT-MG também chamou atenção para o fato de que a maior parte do quadro funcional da unidade é composta por mulheres. Em sua fala, ele reforçou a necessidade de denunciar casos de assédio, intimidação ou qualquer comportamento considerado inadequado.

“Não se calem diante de qualquer atitude estranha, assédio ou desrespeito. O sindicato e a CUT estão ao lado das trabalhadoras e trabalhadores para garantir que seus direitos sejam respeitados”, declarou.

A CUT-MG afirmou que seguirá acompanhando o caso e reiterou que não aceitará qualquer tentativa de humilhação, opressão ou violência contra a classe trabalhadora. A central sindical também destacou que o combate ao assédio e à violência deve ser uma preocupação permanente das empresas e das autoridades responsáveis pela fiscalização das relações de trabalho.

Empresa apura
Após pressão dos trabalhadores, a Midea informou, em nota, que tomou conhecimento da denúncia e afastou preventivamente o gestor apontado pelos trabalhadores. A empresa comunicou ainda a abertura de uma investigação interna para esclarecer os fatos e definir as medidas cabíveis.

Enquanto aguardam o resultado da apuração, trabalhadores e dirigentes sindicais mantêm a cobrança por transparência e responsabilização, caso as denúncias sejam confirmadas. O SMPA não descarta a realização de novas mobilizações e já sinalizou a possibilidade de ampliar os protestos caso a resposta da empresa seja considerada insuficiente.