CNM/CUT defende integração internacional e novo projeto de desenvolvimento
Maicon Michel afirmou que soberania, indústria, trabalho decente e integração latino-americana são respostas à fragmentação da economia global
Publicado: 01 Julho, 2026 - 19h11
Escrito por: Cadu Bazilevski | Editado por: Érica Aragão
A Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT) participou, na tarde desta quarta-feira, 1º de julho, do Seminário Internacional Sindicalismo na Nova (Des)Ordem Mundial, realizado pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) em parceria com o Instituto Lavoro, o Washington Brazil Office (WBO) e o Observatório sobre Direitos Trabalhistas e Sociais Internacionais (ODTI). A entidade foi representada por Maicon Michel, secretário de Relações Internacionais da CNM/CUT e vice-presidente da IndustriALL Global para a América Latina.
O encontro reuniu pesquisadores, juristas, dirigentes sindicais e especialistas do Brasil e do exterior para discutir os impactos das transformações no mundo do trabalho diante do avanço do neoliberalismo, das mudanças geopolíticas, das novas tecnologias, das disputas em torno dos sistemas de proteção trabalhista e social e dos desafios impostos ao sindicalismo. Entre os convidados estavam representantes da Argentina, México, Espanha, Organização Internacional do Trabalho e Comissão Interamericana de Direitos Humanos, consolidando o caráter internacional do debate.
Nova ordem mundial
Durante sua participação na Mesa 3, dedicada aos desafios e oportunidades para os sindicatos diante das mudanças na economia internacional, Maicon afirmou que o mundo atravessa um período de profundas transformações marcado pelo aumento das tensões geopolíticas, pelas guerras, pelo avanço do protecionismo, pela reorganização das cadeias produtivas e pela disputa entre grandes potências econômicas. Segundo ele, esse cenário exige uma nova estratégia de atuação para o movimento sindical.
“O movimento sindical vive um momento de grandes desafios. A intervenção dos Estados Unidos na região, os conflitos internacionais, as mudanças tecnológicas e a reorganização da economia mundial exigem uma nova leitura da realidade para que possamos construir alternativas de desenvolvimento e proteger os empregos”, afirmou. Para o dirigente, compreender as mudanças em curso é condição indispensável para formular políticas capazes de responder às necessidades da classe trabalhadora.
Ao analisar o crescimento da China, Maicon defendeu que o debate ultrapasse os estereótipos frequentemente reproduzidos no Ocidente. “Talvez a gente precise conhecer um pouco mais a China para se livrar de alguns preconceitos. Colocar o neoliberalismo na centralidade dessa análise é o que vai nos permitir elaborar propostas de integração social e de manutenção dos empregos”, disse. Na avaliação dele, compreender diferentes modelos de desenvolvimento amplia a capacidade de construir alternativas para a América Latina.
Integração regional
Um dos principais eixos da exposição foi a defesa da integração latino-americana como resposta à fragmentação da economia global. Segundo Maicon, os países da região precisam fortalecer projetos próprios de desenvolvimento, baseados na soberania, na industrialização, na cooperação regional e no uso sustentável dos recursos naturais. Para ele, esse caminho permite reduzir a dependência externa e ampliar a capacidade de geração de riqueza e empregos.
“A gente quer desenvolvimento industrial soberano e autêntico da região. Não queremos transformar nenhum país em plataforma de mão de obra barata para atrair investimentos. Precisamos construir uma América Latina competitiva, industrializada e com seus recursos naturais utilizados de forma sustentável”, destacou. O dirigente defendeu ainda que a indústria continua sendo o setor capaz de gerar empregos de qualidade, agregar valor à economia e fortalecer a organização coletiva dos trabalhadores.
Na avaliação do secretário de Relações Internacionais da CNM/CUT, o papel do sindicalismo também mudou. Além da negociação coletiva, as entidades precisam participar da formulação de políticas públicas, do planejamento territorial, da transição energética, da qualificação profissional e da construção de estratégias industriais voltadas ao desenvolvimento nacional e regional. “Sem o movimento sindical não há como impulsionar essas transformações de forma sustentável”, afirmou.
Indústria e soberania
Ao abordar a transição energética, Maicon alertou para a necessidade de combinar desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental. Ele citou os desafios relacionados à exploração dos chamados minerais críticos e defendeu que a América Latina não repita modelos predatórios de exploração de recursos naturais. Também ressaltou a importância de fortalecer cadeias produtivas regionais para reduzir a dependência de insumos estratégicos e ampliar a autonomia industrial dos países latino-americanos.
O dirigente também defendeu o fortalecimento do mercado interno, das compras governamentais e da reconversão industrial como instrumentos de desenvolvimento. Segundo ele, a pandemia evidenciou a necessidade de diversificar a produção e ampliar a capacidade de resposta da indústria diante das crises internacionais. Maicon destacou ainda iniciativas de integração produtiva entre Brasil, Argentina, Chile e Uruguai, especialmente no setor naval, construídas com participação de sindicatos e representantes governamentais.
Outro tema enfatizado foi a valorização do salário mínimo. Para Maicon, ampliar o poder de compra da classe trabalhadora é uma medida essencial para fortalecer o mercado interno e enfrentar a lógica neoliberal. “A questão do salário mínimo é imprescindível. Aumentar o poder de compra da classe trabalhadora na região é fundamental. Fazer uma política de valorização do salário já é uma política antineoliberal por si só”, afirmou.
Sindicalismo do futuro
Na parte final da palestra, Maicon defendeu que o movimento sindical recupere sua capacidade de apresentar um projeto de sociedade para as novas gerações. Segundo ele, a juventude continua interessada em política, mas busca propostas capazes de responder aos desafios contemporâneos. “Eu entrei no movimento sindical porque queria construir um novo modelo de sociedade. Me parece que parte do sindicalismo deixou de pautar essa construção e isso é um erro”, afirmou.
Para o dirigente, a consciência de classe continua sendo construída na luta cotidiana, mas o sindicalismo precisa renovar suas formas de comunicação e organização para alcançar trabalhadores inseridos em novas formas de emprego e sociabilidade. Ele citou experiências de mobilização em ambientes digitais e defendeu que as entidades ocupem esses espaços para ampliar o diálogo com a juventude e fortalecer a organização coletiva.
“Utilizar, apropriar e criar novos espaços de interação é fundamental para a gente não só trazer a juventude, mas para organizar a classe trabalhadora numa nova plataforma de construção de uma nova sociedade”, concluiu, ao defender que a integração produtiva regional, a reindustrialização, a valorização do trabalho e a renovação da ação sindical caminhem juntas como parte de um projeto de desenvolvimento soberano para a América Latina.
