Debate na CNM/CUT analisa impactos do acordo Mercosul–União Europeia
Especialista alerta para riscos à indústria e defende políticas públicas para proteger empregos e soberania
Publicado: 30 Janeiro, 2026 - 17h10 | Última modificação: 30 Janeiro, 2026 - 17h14
Escrito por: Cadu Bazilevski | Editado por: Érica Aragão
A sede da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), em São Bernardo do Campo, sediou, nesta quinta-feira (29), um debate sobre o Acordo Mercosul–União Europeia, com foco nos impactos do tratado para a indústria nacional, o emprego e o desenvolvimento soberano do Brasil.
A atividade reuniu dirigentes sindicais e especialistas, com a participação da socióloga Adriana Marcolino, do DIEESE, e do senador Humberto Costa (PT-PE). O encontro integrou a agenda de mobilização da CNM/CUT em defesa da indústria, da geração de empregos de qualidade e dos direitos das trabalhadoras e dos trabalhadores, além da deputada argentina Julia Strada.
Para o presidente da CNM/CUT, Loricardo de Oliveira, o debate foi fundamental para ampliar a compreensão da classe trabalhadora sobre o cenário internacional e seus reflexos no país. “Este encontro é fundamental para termos conhecimento sobre as relações comerciais entre regiões com realidades muito distintas, como países exportadores de commodities, caso do Brasil, e regiões com alta tecnologia e direitos trabalhistas mais avançados”, afirmou.
Loricardo ressaltou que a entidade defende a integração econômica, mas com centralidade no trabalho. “A CNM/CUT defende uma economia globalizada, mas com o trabalho também tratado como um direito global, com valorização da mão de obra e do tempo de trabalho, inclusive no debate do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que ainda enfrenta muitas dificuldades para avançar”, destacou.
Ao analisar o acordo, Adriana Marcolino chamou atenção para as assimetrias estruturais entre o Mercosul e a União Europeia. Segundo ela, o Brasil e os demais países do bloco sul-americano exportam majoritariamente produtos agrícolas, commodities e insumos básicos, enquanto importam máquinas, equipamentos e tecnologia de maior valor agregado.
Para a socióloga, embora a ampliação das exportações possa melhorar indicadores como a balança comercial e o PIB, há riscos para o mercado de trabalho. “Isso pode gerar efeitos negativos sobre a criação de empregos de maior qualidade, especialmente os industriais, mais qualificados e com melhores salários”, alertou.
Marcolino defendeu que o acordo esteja acompanhado do fortalecimento das políticas industriais e de investimentos em ciência, tecnologia e inovação. Segundo ela, esse é o caminho para reduzir as desigualdades e garantir que o tratado resulte em um salto tecnológico e de industrialização, com geração de mais e melhores empregos.
Já o senador Humberto Costa avaliou que o acordo pode trazer ganhos econômicos relevantes ao Brasil, desde que o país adote políticas públicas para proteger os setores industriais mais sensíveis. Ele destacou a matriz energética brasileira como um diferencial estratégico. “Nós temos mais de 80% da nossa energia de origem limpa, e isso certamente será algo importante na hora de definir onde as etapas do processo produtivo vão se dar”, afirmou.
O senador alertou para segmentos que exigem atenção especial, como equipamentos elétricos, máquinas, produtos farmacêuticos, têxteis e a metalurgia. Para esses setores, defendeu políticas tecnológicas e de financiamento voltadas à adaptação e à modernização da indústria nacional.
Apesar dos riscos, Costa avaliou que o acordo tende a gerar efeitos macroeconômicos positivos. “Vamos ter ganhos importantes, como crescimento do PIB, expansão dos investimentos e resultados positivos na balança comercial”, disse.
Segundo ele, a maior concorrência pode estimular investimentos e aumentar a competitividade interna. “A entrada de produtos de maior qualidade e com custo mais baixo vai nos obrigar a realizar investimentos que tornem a concorrência interna mais competitiva”, falou.
O senador lembrou ainda que a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do Brasil e que o país já consegue exportar produtos industrializados com maior valor agregado para o bloco europeu. Também destacou que a redução tarifária prevista no acordo será gradual, com prazos que chegam a até 25 anos, permitindo ajustes estruturais.
Ao final, Humberto Costa reconheceu que o agronegócio tende a ser o principal beneficiado, enquanto setores como o automobilístico, moveleiro e calçadista concentram maiores preocupações. Ainda assim, avaliou que o acordo deve avançar. “Estamos falando da criação de uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, com mais de 722 milhões de consumidores”, concluiu.
O debate reforçou a posição da CNM/CUT de que a inserção internacional do Brasil precisa estar subordinada a um projeto de desenvolvimento que fortaleça a indústria, preserve a soberania nacional e garanta empregos de qualidade para as trabalhadoras e os trabalhadores.
