DIEESE: mulheres avançam na metalurgia, mas desigualdades persistem
Boletim aponta crescimento da presença feminina no setor, mas revela diferenças salariais e sobrecarga de trabalho
Publicado: 27 Março, 2026 - 10h59 | Última modificação: 27 Março, 2026 - 11h06
Escrito por: Cadu Bazilevski | Editado por: Érica Aragão
A participação das mulheres no setor metalúrgico brasileiro cresceu nos últimos anos e alcançou 20,3% da categoria em 2024, segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). O dado indica avanço na presença feminina, mas também revela limites estruturais que ainda dificultam a inserção e a permanência no setor.
Apesar do crescimento, a metalurgia segue majoritariamente masculina, refletindo barreiras históricas no acesso ao emprego. A divisão sexual do trabalho ainda direciona homens e mulheres a funções distintas, o que impacta diretamente nas oportunidades, na estabilidade e nas condições de trabalho enfrentadas pelas trabalhadoras no cotidiano.
Desigualdade no emprego
Maria de Jesus, secretária de Mulheres da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), afirma que a autonomia financeira esbarra em obstáculos concretos no mercado de trabalho. “A autonomia financeira é muito importante para as mulheres”, afirma, “mas existem obstáculos no acesso ao mercado de trabalho”, completa.
“A discriminação por idade, especialmente após os 35 anos, além de preconceitos ligados à gravidez e ao ciclo menstrual, e a alta rotatividade, dificultam a permanência no emprego”, acrescenta. Segundo ela, essas barreiras reforçam a exclusão e limitam as possibilidades de crescimento profissional no setor.
Mesmo com maior inserção, as mulheres continuam recebendo menos. Em média, elas ganham 19,2% menos que os homens, diferença que persiste mesmo em jornadas equivalentes. São cerca de 490 mil trabalhadoras frente a quase 2 milhões de homens, evidenciando a desigualdade estrutural que ainda marca o setor metalúrgico.
Raça amplia diferenças
O recorte racial evidencia desigualdades ainda mais profundas. Mulheres negras recebem até 43,4% a menos que homens não negros, demonstrando como gênero e raça se combinam para ampliar a exclusão. O levantamento do DIEESE também mostra que a desigualdade salarial cresce conforme aumenta o nível de escolaridade.
Entre trabalhadores com ensino superior completo, a diferença salarial ultrapassa 30%, chegando a 34,6%. Isso indica que, mesmo com maior qualificação, as mulheres continuam enfrentando barreiras estruturais que limitam o reconhecimento e a valorização do seu trabalho no setor metalúrgico.
Para Christiane Aparecida, secretária de Igualdade Racial da CNM/CUT, o avanço na presença feminina é importante, mas ainda insuficiente diante do cenário. Para ela, a permanência dessas diferenças revela a necessidade de mudanças estruturais no setor.
“É muito importante ter mais mulheres e mulheres negras no local de trabalho, ocupando espaço e conquistando independência financeira. O mercado formal nos dá mais segurança”, completa, “mas ainda precisamos avançar muito, porque ano após ano as desigualdades salariais persistem”, conclui.
Divisão do trabalho
A economista da subseção DIEESE da CNM/CUT, Renata Filgueiras, avalia que os dados ajudam a compreender a lógica das desigualdades. “As estatísticas contribuem para refletir sobre a divisão sexual do trabalho”, afirma, “e evidenciam os processos pelos quais a sociedade utiliza diferenças para hierarquizar atividades”, completa.
“Esse mecanismo empurra as mulheres para ocupações mais precárias, com menores rendimentos e maior informalidade”, diz, “aprofundando o tempo dedicado aos trabalhos domésticos e de cuidado e intensificando a jornada não remunerada”, conclui. Segundo ela, reconhecer esse cenário é essencial para transformá-lo.
Além disso, a dupla jornada segue como um dos principais entraves. Ao acumularem trabalho remunerado e responsabilidades domésticas, as mulheres ampliam significativamente o tempo total de trabalho, o que limita sua autonomia econômica e reforça as desigualdades já existentes no setor metalúrgico.
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