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Formação debate indústria, soberania e futuro do trabalho

Encontro dos metalúrgicos da CNM/CUT de SC e PR discutiu reindustrialização, transições tecnológicas, políticas públicas e desenvolvimento com direitos

Publicado: 21 Agosto, 2026 - 15h50

Escrito por: Cadu Bazilevski | Editado por: Érica Aragão

Reprodução
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“Discutir política industrial é discutir desenvolvimento produtivo, tecnológico, social e humano”

O segundo encontro do percurso formativo do Departamento dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT) de Santa Catarina e Paraná reuniu dirigentes nesta quinta-feira (20) para debater políticas industriais, soberania nacional, desenvolvimento e os impactos das transformações no mundo do trabalho.

Realizada de forma virtual, a atividade integra a preparação para o 6º Congresso do Departamento dos Metalúrgicos da CNM/CUT de SC e PR, e deu continuidade à formação iniciada com a discussão sobre as eleições de 2026.

Na abertura, Cleverson de Oliveira, coordenador do Departamento e secretário de Organização da CUT-SC, prestou homenagem a Mario Fracaro, dirigente histórico do Movimento Metalurgente e do Sindicato dos Metalúrgicos de Ponta Grossa e Região.

A trajetória de Fracaro foi lembrada pelo compromisso com a organização da categoria e com a defesa das trabalhadoras e trabalhadores. Sua atuação sindical marcou a construção e o fortalecimento da organização dos metalúrgicos na região.

Rosana Sousa, trabalhadora da BMW e diretora do Sindicato dos Metalúrgicos de Araquari e São Franscisco do Sul (SINTRAMASF) e da CNM/CUT, coordenou a mesa e relacionou o tema do encontro à construção de um projeto de sociedade inclusiva, debate iniciado na primeira etapa do percurso formativo dos dirigentes.

“Precisamos de políticas de Estado, e não apenas de governo, para que o Brasil cresça com desenvolvimento sustentável e distribuição da riqueza gerada no nosso país”, afirmou Rosana, ao defender medidas contra as desigualdades e a favor da inovação.

Loricardo de Oliveira, presidente da CNM/CUT, aproximou o debate sobre política industrial das disputas enfrentadas pela classe trabalhadora brasileira. Ao participar da atividade, chamou atenção para a luta pela redução da jornada.

“A indústria é o indutor da política social. E nós somos os indutores dessa indústria porque nós a produzimos”, destacou Loricardo, ao cobrar participação dos trabalhadores nos ganhos tecnológicos, na gestão e nas decisões sobre a produção.

O dirigente questionou modelos de formação profissional restritos à operação de máquinas. Para Loricardo, as mudanças tecnológicas exigem trabalhadoras e trabalhadores preparados também para participar das estratégias industriais e ocupar funções de maior qualificação.

“É inadmissível que empresas recebam incentivos públicos enquanto adotam postura antissindical”, defendeu Loricardo, ao sustentar que recursos destinados à indústria precisam estar vinculados à geração de empregos de qualidade e ao respeito aos direitos trabalhistas.

Loricardo também relacionou as políticas industriais e sociais à disputa política de 2026. Segundo ele, a mobilização dos trabalhadores será decisiva para defender direitos, reduzir a jornada e sustentar um projeto nacional de desenvolvimento.

Transições em curso
Aroaldo da Silva, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e presidente da IndustriALL Brasil, conduziu a exposição principal a partir das transições tecnológica, ecológica, energética e demográfica que estão redesenhando a indústria no Brasil e no mundo.

“Discutir política industrial é discutir desenvolvimento produtivo, tecnológico, social e humano”, explicou Aroaldo. Para ele, a indústria brasileira deve ser analisada também por sua capacidade de impulsionar outros setores, gerar renda e atender às demandas da sociedade.

A inteligência artificial foi apontada pelo dirigente como um divisor de águas nos processos produtivos e na aquisição de conhecimento. A emergência climática, a transição energética e o envelhecimento populacional também estiveram entre os desafios apresentados.

A reorganização das cadeias produtivas globais ganhou espaço na exposição. Aroaldo observou que a pandemia revelou a vulnerabilidade da dependência externa e levou diferentes países a reforçar políticas industriais, inovação e estratégias de soberania.

“Política industrial não é só lançar um programa”, ressaltou Aroaldo, ao citar a Nova Indústria Brasil, a defesa comercial, as políticas de inovação e os regimes específicos dos setores como instrumentos que precisam atuar de maneira articulada.

Soberania e renda
Ao analisar o Brasil, Aroaldo chamou atenção para a desindustrialização precoce e a perda de participação da indústria na economia. O processo, segundo ele, reduziu a capacidade de gerar renda, incorporar tecnologia e fortalecer cadeias produtivas nacionais.

O avanço do setor de serviços não compensou essa perda de forma qualificada, avaliou o dirigente, já que muitas atividades apresentam baixa intensidade tecnológica e de conhecimento. Reindustrializar também significa recuperar a capacidade brasileira de inovar.

“Debater a indústria é debater esse modelo de desenvolvimento que a gente quer”, pontuou Aroaldo. Na avaliação do dirigente, fortalecer cadeias produtivas e incorporar tecnologias são passos necessários para combinar soberania e melhores condições de vida.

A posição da América Latina na nova geopolítica também entrou na discussão. Aroaldo lembrou que, enquanto países centrais reforçam sua soberania econômica, tecnológica e industrial, a região ainda precisa construir uma resposta à nova divisão internacional do trabalho.

Tecnologia e trabalho
No encerramento da exposição, Aroaldo colocou a transição tecnológica entre os temas estratégicos para o Brasil e chamou atenção para a indústria mineral, tanto pela geração de renda quanto pelo potencial de agregar valor às cadeias produtivas nacionais.

Para o dirigente, a mineração e a Nova Indústria Brasil precisam integrar uma estratégia de desenvolvimento capaz de transformar as vantagens do país em capacidade produtiva, tecnológica e econômica, com fortalecimento da soberania nacional.

Ao lado das cadeias produtivas, do financiamento e da inovação, as mudanças no trabalho precisam ocupar posição central nessa estratégia. O desafio, avaliou Aroaldo, é garantir que as trabalhadoras e os trabalhadores tenham acesso ao conhecimento incorporado aos novos processos produtivos.

A formação profissional, nesse cenário, não pode se encerrar em uma etapa da vida. O dirigente defendeu a educação continuada como resposta às mudanças tecnológicas e ao aumento da longevidade, que altera trajetórias profissionais e amplia os desafios da qualificação.

O envelhecimento da população também exige discutir as condições de vida nas cidades. Para Aroaldo, desenvolvimento urbano, produção e trabalho estão conectados e precisam fazer parte de uma estratégia capaz de responder às transformações demográficas em curso.

“Consolidar uma política industrial significa, acima de tudo, implementar um projeto abrangente de desenvolvimento econômico, tecnológico, social e humano”, frisou Aroaldo, ao colocar a qualidade de vida como parte inseparável da estratégia industrial.

Ao abordar a passagem da Indústria 4.0 para a Sociedade 5.0, Aroaldo ressaltou a necessidade de colocar as pessoas no centro das transformações. “Tecnologia e produtividade, nessa perspectiva, devem estar vinculadas ao desenvolvimento humano e ao bem-estar social”, defendeu.

O encontro reforçou a formação como espaço de preparação para o 6º Congresso do Departamento. Ao reunir indústria, tecnologia, direitos e soberania, o debate apontou para um projeto de desenvolvimento no qual os trabalhadores sejam protagonistas das decisões.