Metalúrgicos debatem impactos da inteligência artificial no emprego e na indústria
Encontro discutiu automação, qualificação profissional e o papel dos sindicatos na proteção dos trabalhadores diante das mudanças tecnológicas
Publicado: 18 Setembro, 2026 - 13h09
Escrito por: Cadu Bazilevski | Editado por: Érica Aragão
O Ramo Metalúrgico da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT) reuniu dirigentes de Santa Catarina e do Paraná, de maneira online, na noite desta quinta-feira (17), para discutir os efeitos da inteligência artificial e da digitalização sobre a indústria e o trabalho.
A atividade integrou o percurso formativo promovido pela entidade e marcou o terceiro encontro do ciclo, previsto para continuar até o próximo ano. A programação busca preparar a representação sindical para os desafios que já chegam às fábricas.
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Jefferson Palhão, coordenador do Ramo Metalúrgico da CNM/CUT em Santa Catarina e no Paraná e secretário de Meio Ambiente da CUT Paraná, abriu o encontro e reforçou a importância de manter a formação sindical diante das mudanças tecnológicas.
“As atividades continuarão até o próximo ano, quando encerraremos este ciclo e avaliaremos a continuidade do projeto. O tema de hoje tem grande importância para a nossa categoria e para o futuro do trabalho”, afirmou Palhão.
A secretária de Formação da CNM/CUT, Maria do Amparo, relacionou a iniciativa à preparação dos dirigentes para os debates do próximo Congresso da CUT. Para ela, compreender as novas tecnologias é essencial para uma intervenção sindical qualificada.
“Este percurso formativo é muito rico. Ele permite que os dirigentes se apropriem dos temas, ampliem seus conhecimentos e participem dos debates em igualdade de condições e com argumentos sólidos”, destacou Maria do Amparo.
A dirigente também chamou a atenção para outras transformações em andamento no setor industrial. “Precisamos acompanhar a inteligência artificial, a mobilidade elétrica, a eletrificação e as novas rotas tecnológicas”, ressaltou.
Convidado para conduzir a atividade, Pedro Otoni é cientista político, atua nas áreas de planejamento e formação sindical e dirige a Caixa de Ferramentas, plataforma digital dedicada à formação de dirigentes e trabalhadores.
Otoni apresentou uma pesquisa inicial sobre o avanço da inteligência artificial e da indústria 4.0 em Santa Catarina e no Paraná. “O impacto em cada setor ainda exige muito estudo, mas já temos informações importantes para orientar o debate”, avaliou.
Mudanças nas fábricas
Segundo o palestrante, sistemas de IA aprendem com dados e executam tarefas sem receber uma programação específica para cada ação. Na metalurgia, a tecnologia já detecta defeitos, ajusta soldas robotizadas e prevê falhas em equipamentos.
Os números expostos por Otoni indicaram que 41,9% das mais de 147 mil empresas brasileiras ligadas à metalurgia e à fabricação de produtos de metal utilizam IA. Entre 2022 e 2024, a adoção da tecnologia teria crescido 209%.
Em Santa Catarina e no Paraná, a apresentação apontou 46.530 empresas metalúrgicas, o equivalente a 31,6% do total nacional. Juntos, os estados ocupam posições de destaque no emprego industrial e reúnem mais de 1,5 milhão de trabalhadores.
Na produção, os resultados citados incluíram redução de 30% a 40% no tempo de soldagem e queda de 20% a 25% no retrabalho. A manutenção preditiva pode diminuir as paradas em até 30%, enquanto a produtividade pode avançar até 25%.
Como exemplo, Otoni citou um fabricante de implementos rodoviários de Santa Catarina. A empresa investiu entre R$ 12 milhões e R$ 15 milhões em uma célula robotizada de soldagem implantada entre 2024 e 2025.
Conforme os dados apresentados, o ciclo de soldagem, que levava de um a dois dias, passou a ser concluído em 30 minutos. A produção diária chegou a 25 implementos, e de 40 a 50 soldadores foram afetados e encaminhados à requalificação.
Empregos em disputa
Para o período de 2026 e 2028, a projeção exibida apontou risco direto para 2.300 a 4.500 trabalhadores, entre 7% e 15% do setor nos dois estados. Soldadores manuais, operadores de CNC e auxiliares de produção estão entre os mais expostos.
A transformação, por outro lado, deverá ampliar a procura por operadores de sistemas, técnicos de manutenção e programadores de máquinas CNC. “As mudanças exigem proteção, negociação coletiva e qualificação profissional”, observou Otoni.
Ação dos sindicatos
Entre as ações prioritárias, o palestrante defendeu que os sindicatos identifiquem empresas com planos de automação e negociem garantias antes da implantação. Também propôs cursos de qualificação pagos pelas empresas e comissões de acompanhamento.
Otoni ainda recomendou pesquisas permanentes sobre os impactos da automação e participação efetiva dos trabalhadores nas decisões. “A IA não é inimiga do trabalho, mas é inimiga do emprego. Exige proteção e negociação”, frisou.
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