Prorrogar benefício para importação é colocar empregos e investimentos em risco
Em carta ao MDIC, movimento sindical pede ao governo que mantenha o cronograma de retomada da tributação sobre veículos eletrificados desmontados e fortaleça a produção nacional
Publicado: 23 Junho, 2026 - 15h03 | Última modificação: 23 Junho, 2026 - 15h08
Escrito por: Érica Aragão
A Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), centrais sindicais, confederações e sindicatos metalúrgicos alertam que a prorrogação dos benefícios para a importação de veículos eletrificados desmontados nas modalidades CKD (Completely Knocked Down) e SKD (Semi Knocked Down) coloca em risco empregos, investimentos produtivos e os esforços de reindustrialização do país.
Em carta encaminhada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as entidades defendem a manutenção do cronograma de retomada da tributação previsto para janeiro de 2026 e cobram medidas que fortaleçam a produção nacional, a geração de renda e o desenvolvimento tecnológico brasileiro.
O posicionamento ocorre diante da proximidade do vencimento, em janeiro de 2026, das cotas de importação com alíquota reduzida ou zerada para veículos eletrificados classificados nas NCMs 8703.60.00, 8703.80.00 e 8704.51.00. Para as entidades, renovar esses incentivos significaria prolongar um modelo que favorece a importação em detrimento da fabricação nacional, ameaçando empregos qualificados em toda a cadeia automotiva.
Para a CNM/CUT, o debate não se resume a uma questão tributária. Está em jogo o modelo de desenvolvimento que o Brasil pretende construir para a nova indústria automotiva e para a transição energética.
O Brasil precisa aproveitar a expansão da produção de veículos híbridos e eletrificados para gerar empregos, desenvolver tecnologia e fortalecer sua indústria, com aumentos de direitos, ampliando as possibilidades de melhoras o acesso ao trabalho com direitos. Não faz sentido manter incentivos que estimulam a importação de kits desmontados quando o país precisa ampliar a produção nacional, aumentar o conteúdo nacional e consolidar uma cadeia produtiva forte e sustentável”, afirma o presidente da CNM/CUT, Loricardo de Oliveira.
Segundo a carta encaminhada ao MDIC e à Câmara de Comércio Exterior (Camex), as empresas beneficiadas pelas cotas já tiveram tempo suficiente para se estruturar no mercado brasileiro. A ampliação da cota para US$ 463 milhões, autorizada pela Portaria SECEX nº 420/2025, garantiu condições para a expansão das operações dessas montadoras no país.
Agora, argumentam as entidades, é o momento de avançar para uma nova etapa: investir em fábricas, ampliar a nacionalização de componentes, transferir tecnologia e criar postos de trabalho de qualidade.
Reindustrialização e empregos em risco
As entidades alertam que a continuidade dos benefícios para importação de CKD e SKD pode comprometer os esforços de reindustrialização em andamento no país e enfraquecer programas estratégicos como a Nova Indústria Brasil (NIB).
Na avaliação dos sindicatos, a política industrial brasileira deve estimular a produção local e não a substituição da fabricação nacional por operações de simples montagem com componentes importados.
A preocupação também está relacionada ao histórico recente da indústria de transformação brasileira, que acumulou déficit de aproximadamente US$ 580 bilhões na balança comercial entre 2000 e 2025. Para as entidades, reverter esse cenário exige fortalecer as cadeias produtivas nacionais e ampliar a capacidade industrial instalada.
Presidente eleito do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Welington Damasceno afirma que os incentivos tiveram papel importante em um momento inicial do mercado, mas que a realidade atual é diferente.
“Os incentivos eram justificáveis quando o mercado de eletrificados ainda estava se formando. Mas hoje a realidade mudou. Esses veículos já representam uma parcela importante das vendas no país e grande parte desse volume é composta por produtos importados. É hora de avançar para a produção nacional, gerando empregos, investimentos e desenvolvimento tecnológico no Brasil”, defende.
Welington também alerta que a prorrogação dos benefícios pode enviar um sinal contrário aos objetivos da política industrial brasileira.
“Quando se amplia a importação de veículos ou de kits desmontados, outras empresas podem concluir que é mais vantajoso importar do que produzir localmente. Isso enfraquece a indústria nacional, reduz investimentos e coloca em risco milhares de empregos em toda a cadeia automotiva”, acrescenta.
Produzir no Brasil para gerar empregos no Brasil
As entidades sindicais destacam que defendem a expansão da mobilidade sustentável e da eletrificação da frota brasileira. O que está em discussão, afirmam, é a forma como essa transformação ocorrerá.
Para a CNM/CUT, a transição para veículos eletrificados deve caminhar junto com a geração de emprego, renda e desenvolvimento tecnológico no país.
“A transição energética precisa ser também uma transição produtiva. Queremos mais veículos eletrificados circulando nas ruas, mas queremos que eles sejam produzidos no Brasil, por trabalhadores brasileiros, gerando riqueza para o país e fortalecendo nossa indústria. Essa é a melhor forma de combinar sustentabilidade ambiental com desenvolvimento econômico e justiça social”, reforça Loricardo.
