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Recrusul volta a disputar mercado de implementos rodoviários

Publicado: 21 Maio, 2010 - 00h00

Escrito por: CNM CUT

Quatro anos e meio depois de beijar a lona, num processo que incluiu a paralisação temporária da produção e o recurso ao regime de recuperação judicial de janeiro de 2006 a dezembro de 2008, a Recrusul começa a dar novamente as caras no mercado de implementos rodoviários. Até o controle acionário mudou de mãos no meio do caminho e agora a empresa vai diversificar a linha de produtos para tentar retornar, no ano que vem ou no máximo no próximo, ao patamar do faturamento bruto anual recorde de R$ 108 milhões atingido em 2000.

Alinhadas com o plano de recuperação judicial aprovado pelos credores em dezembro de 2006, as metas da empresa incluem a produção e a venda de 600 semirreboques e carrocerias neste ano, o dobro de 2009, conta o sócio e diretor-presidente Ricardo Mottin Jr. O desempenho começou a tomar forma no primeiro trimestre, quando foram vendidas 116 unidades e a receita líquida alcançou R$ 9,5 milhões, com altas de 190% e 164% sobre o mesmo período do ano passado, respectivamente. A receita bruta subiu 109%, para R$ 12,5 milhões.

Os números são pequenos diante dos concorrentes também com sede no Rio Grande do Sul. Em 2009, a empresa teve receita líquida de R$ 26,3 milhões, enquanto a Randon alcançou quase R$ 1,1 bilhão no segmento de implementos rodoviários e a Guerra, R$ 299,8 milhões. Mas isso não assusta a Recrusul, que aposta na qualidade dos produtos que fabrica e na tradição da marca - que completa 56 anos dia 30 - para recuperar os clientes perdidos nos últimos anos. "A empresa fabricou em 1958 a primeira carroceria frigorificada do Brasil", lembra Mottin Jr.

Conforme o também sócio e diretor financeiro e de relações com investidores Bernardo Flores, a empresa está com dois novos produtos em fase de homologação no Departamento Nacional de Trânsito (Denatan). São semirreboques e carrocerias tipo "sider" (com abertura lateral em lona) e porta-contêineres, que durante o segundo semestre serão incorporados à linha já existente para transporte de cargas frigorificadas, alimentos, combustíveis, produtos químicos, gases comprimidos e cimento.

Outro projeto é o de uma caçamba basculante para mineração e construção civil, dois setores em alta no país, que só depende da montagem de uma equipe específica de engenharia para sair da prancheta, afirma Flores. A empresa produz ainda equipamentos de refrigeração industrial (responsáveis por 5% da receita no trimestre) e está estudando a ampliação da linha de aparelhos de ar-condicionado - hoje fabricados para aplicação nos produtos próprios - para atender também a clientes externos.

Desde que assumiram o negócio, em abril de 2008, os novos controladores já investiram R$ 3 milhões em aquisição e remodelação de máquinas, sistemas e equipamentos de informática, introdução de novos processos industriais e treinamento de pessoal. Para a nova fase de expansão, serão necessários aportes de apenas mais R$ 1 milhão, porque capacidade instalada já existe. "Estamos operando a pleno, mas em apenas um turno, e podemos abrir uma segunda turma de trabalho", explica Flores.

Hoje, segundo Mottin Jr, a Recrusul emprega 350 pessoas e se o desempenho se mantiver aquecido no segundo semestre como indica a carteira de pedidos equivalente a quase cinco meses de produção (ante 30 dias nesta mesma época de 2009) outras 150 poderão ser contratadas até o fim do ano. Quando interrompeu a operação, de outubro de 2005 a abril de 2007, a empresa havia reduzido a equipe de quase 500 funcionários para cerca de 80, mas no fim dos anos 90 o quadro chegou a mil empregados, diz o diretor-presidente.

O processo de reestruturação da Recrusul também passou pela desverticalização parcial da produção. Os eixos e suspensões que antes eram feitos em casa começaram a ser adquiridos da Suspensys, uma controlada da concorrente Randon, para a empresa focar energias no negócio principal, explica Flores. A rede de distribuidores, desmontada em 2006, já conta com 30 representantes no país e deve crescer para 50 em dois anos, com ênfase nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, acrescenta Mottin Jr. As exportações, para África e América do Sul, respondem por apenas 3% das receitas.
Grupo de investidores compra marca e retoma produção.

No inicio de 2008 a Recrusul era, pelo menos à primeira vista, um pacote pouco atraente. A empresa recém havia saído, em abril do ano anterior, de um período de 18 meses sem produzir um único implemento rodoviário sequer e carregava uma dívida de quase R$ 82 milhões. Desse total, R$ 50 milhões correspondiam a passivos tributários e o restante a débitos trabalhistas, bancários e com fornecedores incluídos no plano de recuperação judicial acertado com os credores em dezembro de 2006.

Mesmo assim, um grupo de dez investidores decidiu apostar no negócio e arrematou o controle da operação que pertencia a Valayr Hélio Wosiack por R$ 4 milhões em abril daquele ano. Entre eles estavam o atual diretor-presidente, Ricardo Mottin Jr, um engenheiro mecânico que em abril de 2007 já havia sido contratado como gestor da empresa pelo antigo controlador, e o economista, bacharel em ciências da computação e analista do mercado de capitais Bernardo Flores, hoje diretor financeiro e de relações com investidores.

Tanto Mottin Jr quanto Flores já tinham experiência em reestruturações de empresas. O diretor presidente tem 17,23% das ações ordinárias por intermédio da Master Assessoria, enquanto o diretor de relações com investidores detém 17% via Portocapital, uma empresa de investimentos. O grupo de controladores inclui ainda o gaúcho Ari Hilgert e o baiano Francisco Asclépio Aguiar, além de investidores paulistas, mas nenhum desses ocupa funções administrativas. No caso das ações preferenciais, 52% estão no "free float".

Além do aporte na aquisição do controle, os novos sócios colocaram R$ 23 milhões na Recrusul em dois aumentos de capital, no fim de 2008 e de 2009. As operações, somadas a um deságio de pouco mais de R$ 22 milhões nos passivos tributários corrigidos, por conta da adesão, no fim de 2009, ao Refis 4, permitiram a reversão do patrimônio líquido negativo de R$ 43 milhões no fim de 2007 para R$ 1,1 milhão positivos em 31 de março deste ano.

A aprovação do plano de recuperação judicial também garantiu fôlego à empresa, pois parcelou os débitos com bancos e fornecedores em oito anos (as duas primeiras parcelas foram pagas em dezembro de 2008 e dezembro de 2009) e também alongou o pagamento dos passivos trabalhistas, sempre com juros de 6% ao ano, sem correção. No fim do primeiro trimestre, o montante das dívidas era de R$ 22,6 milhões, contra os quase R$ 32 milhões originais.

No ano passado a empresa teve prejuízo consolidado de R$ 7,5 milhões, ante o lucro de R$ 900 mil em 2008, influenciado pela contabilização de um passivo tributário de R$ 17 milhões da controlada Refrisa decorrente da adesão ao Refis 4. "A controladora teve lucro de R$ 20,2 milhões", lembra Flores. No primeiro trimestre, o lucro consolidado foi de R$ 16 mil, ante R$ 2,7 milhões de lucro no mesmo período de 2009, quando o resultado foi turbinado pela reversão de R$ 5 milhões em provisões da mesma Refrisa. A empresa fabricava carrocerias em São Paulo, foi reativada no início do ano passado e hoje apenas presta serviços para a controladora.

Fonte: Valor