Senado entra em recesso, mas milhões seguem presos à escala 6x1
Enquanto o Congresso interrompe as atividades, cerca de 15 milhões de trabalhadores continuam cumprindo jornadas de seis dias para descansar apenas um durante a semana
Publicado: 23 Julho, 2026 - 15h43
Escrito por: Cadu Bazilevski | Editado por: Érica Aragão
Enquanto o Senado Federal entra em recesso parlamentar, milhões de brasileiras e brasileiros seguem enfrentando uma rotina que não conhece pausa. Para quem trabalha na escala 6x1, não há interrupção no calendário nem tempo suficiente para recuperar o desgaste físico e mental. A discussão sobre a redução da jornada também fica em compasso de espera, embora a realidade de quem trabalha seis dias consecutivos permaneça a mesma.
Levantamento do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) aponta que cerca de 15 milhões de trabalhadores formais cumprem atualmente a escala 6x1. O dado representa 33,2% dos vínculos de 44 horas semanais registrados no país e tem como base informações da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e do eSocial. A maior concentração está nos setores de comércio, serviços e indústria.
A análise dos números foi realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), que destaca a permanência desse modelo de jornada em segmentos essenciais da economia. Para a entidade, o debate sobre a organização do tempo de trabalho ganhou força nos últimos anos diante das transformações tecnológicas, do aumento da produtividade e das discussões sobre qualidade de vida.
Impactos da jornada
Para a Secretária de Políticas Sociais da Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT (CNM/CUT), Kelly Galhardo, a escala 6x1 se tornou um dos maiores símbolos da precarização das relações de trabalho no Brasil. Segundo ela, o modelo afeta diretamente a saúde dos trabalhadores e compromete a convivência familiar e social.
“Hoje, a escala 6x1 é um dos maiores símbolos da precarização do trabalho no Brasil. Trabalhar seis dias seguidos deixa os trabalhadores esgotados. Observamos um aumento dos afastamentos por ansiedade, depressão e acidentes de trabalho. O trabalhador não tem tempo para recuperar o corpo, e a mente não aguenta”, afirmou.
Kelly ressalta que o único dia de folga costuma ser insuficiente para atender às necessidades básicas da vida cotidiana. “Com apenas um dia de folga, o trabalhador muitas vezes não consegue cuidar dos filhos, ir ao médico, estudar ou simplesmente descansar. É um dia para resolver a vida toda”, disse.
Mulheres prejudicadas
A dirigente também chama atenção para a realidade enfrentada por muitas mulheres. Segundo ela, a jornada de trabalho não termina ao deixar a empresa. “Muitas trabalhadoras cumprem dupla jornada. Trabalham seis dias fora de casa e, no único dia de descanso, assumem integralmente o trabalho de cuidado. Isso é extremamente exaustivo”, falou.
Debate adiado
Na avaliação da representante da CNM/CUT, a manutenção da escala também produz reflexos dentro das empresas. “O cansaço não gera qualidade. A empresa que esgota o trabalhador perde produtividade e segurança. A tecnologia e a produtividade aumentaram muito nas últimas décadas, mas a jornada continua praticamente a mesma. Reduzir a jornada sem reduzir salários significa distribuir melhor o trabalho, gerar mais empregos e garantir dignidade”, avalia.
O recesso parlamentar ocorre justamente quando propostas relacionadas à redução da jornada são debatidas no Congresso Nacional. Entre elas está a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê a redução da jornada de trabalho sem redução de salário e o fim da escala 6x1, tema que mobiliza trabalhadores, entidades sindicais e diversos setores da sociedade.
Realidade de milhões
Para Kelly, interromper o debate durante o recesso amplia a sensação de distanciamento entre o Parlamento e quem vive diariamente os efeitos da jornada. “O recesso do Congresso contrasta com a realidade de milhões de trabalhadores que seguem na escala 6x1 sem direito de escolha. A proposta de acabar com essa jornada não pode esperar. O recesso não pode servir de desculpa para engavetar essa pauta”, afirma.
A dirigente conclui defendendo prioridade para o tema na retomada das atividades legislativas. “Se o Congresso pode parar, o trabalhador também tem direito de parar, de ter tempo para viver, porque a vida não é só trabalho”, encerrou.
