Setor eletro: CCE leva fábrica de PCs para o Paraná
Publicado: 02 Julho, 2007 - 08h00
Escrito por: CNM CUT
A Digibras, empresa de informática do grupo CCE, vai investir R$ 7,125 milhões em uma fábrica de computadores na cidade da Lapa, no Paraná. O anúncio foi feito pelo governo do Estado na sexta-feira, menos de um mês após uma a concorrente Bitway, da Bahia, confirmar a instalação de uma segunda unidade em Piraquara, no mesmo Estado, onde injetará R$ 5 milhões. Os dois municípios ficam na região metropolitana de Curitiba, onde está a Positivo Informática, atual líder do setor.
A notícia da chegada da CCE no Estado foi colocada no site do governo e recebida com surpresa tanto na empresa como na prefeitura da Lapa. 'Estamos negociando há uns três meses e nem tenho como dizer que está 100% certo', disse o vice-prefeito, Mansur de Jesus Daou. Procurado pelo Valor, o secretário de Indústria, Comércio e Assuntos do Mercosul, Virgílio Moreira Filho, não deu entrevista sobre o assunto. A CCE também não falou sobre o investimento.
De acordo com o texto do governo, a fábrica da Digibras deve começar a funcionar em seis meses e vai gerar 600 empregos diretos. A data não é muito diferente da divulgada pela Bitway, que pretende iniciar a produção em janeiro de 2008 e terá 300 trabalhadores. A empresa do grupo CCE já foi apresentada como a segunda em fabricação de computadores no Estado. Ela terá capacidade para produzir 450 mil computadores de mesa, 180 mil portáteis e 200 mil monitores com telas de cristal líquido por ano.
A Positivo, após conquistar a liderança em vendas de PCs no país, transferiu sua produção em 2005 para uma nova fábrica, que recebeu investimentos de R$ 12 milhões e tem capacidade para montar 130 mil computadores por mês. Já a Bitway terá capacidade para montar 50 mil equipamentos por mês no Estado.
O Valor procurou o Positivo para saber se a proximidade das concorrentes irá incomodar, mas os diretores não deram retorno. Outra que cogita vir para o Paraná é a HBFlex, que planeja construir duas fábricas para produção de máquinas e placas-mãe em parceria com o grupo Tecmaster, do Rio Grande do Sul. Uma unidade prevista para este ano deverá ficar em São Paulo, no município de Valinhos ou Campinas. A segunda deverá ser montada em 2008 e quatro Estados são avaliados: Rio Grande do Sul, Paraná, Minas Gerais e Paraíba.
No caso da Digibras, a prefeitura da Lapa, que tem cerca de 50 mil habitantes e fica 60 quilômetros distante da capital, não precisou dar incentivos. Eles foram oferecidos pelo governo estadual por meio do programa Bom Emprego, que permitirá o adiamento do pagamento de 90% do ICMS por quatro anos. Após esse período, o valor acumulado poderá ser parcelado em mais quatro anos.
O ICMS incidente sobre a fatura de energia elétrica também poderá ser pago após dois anos, dividido em 24 meses. Tanto a Digibras como a Bitway terão a produção voltada para o mercado interno. Hoje toda a fabricação da Digibras é feita em Manaus (AM), e a da Bitway, em Ilhéus (BA).
O desembarque da CCE no Paraná acontece poucos meses depois de a empresa ter vendido 22 mil TVs de 29 polegadas e tela plana para a Cequipel, empresa que venceu licitação para equipar escolas da rede estadual de ensino, um contrato de R$ 18,9 milhões.
Os opositores do governador Roberto Requião (PMDB) consideraram alto o valor unitário de cada aparelho - R$ 860. O governo alegou que o equipamento tem características diferenciadas, como entrada USB, para conexão de pen drive e cartão de memória, e permite a transmissão de arquivos copiados de TV aberta e a cabo, DVD, computador e internet.
O governo do Paraná também só tratou de divulgar a nova fábrica da CCE após Requião assinar um novo decreto que mantém incentivos estaduais. 'Ele assinou nesta semana [passada], e o documento tem os mesmos benefícios oferecidos por São Paulo', disse, na sexta-feira, o secretário da Fazenda, Heron Arzua. 'Foi copiado de São Paulo', completou, sem dar detalhes.
Esse documento foi feito para substituir uma lei de 2001 que beneficiava o setor e foi julgada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após ser questionado pelo governo paulista. A lei trata de crédito presumido de ICMS e isenta de pagamento do imposto empresas do ramo de informática que investem em ciência e tecnologia. (Colaborou Claudia Facchini, de São Paulo)
Companhias avaliam produção local de acessórios para ganhar mercado
A conclusão mais imediata sugere que qualquer companhia no Brasil que se meta a peitar a máquina chinesa na disputa pelo mercado de acessórios de informática tem tudo para se dar mal. Em boa parte dos casos, é isso mesmo. Não é à toa que a maioria das empresas que possuem produção local de equipamentos também buscam acordos na Ásia para não perder competitividade com outros produtos. Mas também há casos em que a fabricação local é a única maneira de ganhar mercado. Quem acaba de perceber isso a AG Neovo, companhia de Taiwan especializada na fabricação de monitores sofisticados, muitos vezes usados para fins profissionais.
Nesta semana vem ao Brasil o diretor comercial da empresa para a América Latina, África e Sul da Europa, Tristram Borgmann. Na agenda do executivo, um objetivo bastante claro: discutir o plano para montar uma fábrica local de monitores. 'Fizemos estudos e notamos que o Brasil tem um mercado muito interessante, só que extremamente protegido', comenta Betto Brochetto, diretor da TechnoVision, empresa que desde 2003 importa os produtos da AG Neovo para o Brasil. 'Qualquer marca que venha de fora com a meta de registrar um volume expressivo de vendas no país precisa avaliar a produção local.'
Três cidades estão no radar da AG Neovo: Manaus, Ilhéus e São Paulo. Para dar início à operação, diz Brochetto, uma fabricação local tem que ter capacidade de produzir pelo menos 5 mil monitores por mês.
Ao entrar na disputa pelo mercado nacional de monitores, a AG Neovo quer brigar de frente com companhias como LG e Samsung, que há anos fabricam suas telas no país. A coreana Samsung, que concentra sua produção em Manaus, deve trazer suas linha de montagem para São Paulo.
Segundo o diretor comercial de produtos de TI da Samsung, Wladimir Benegas, esse é mais um setor que tem passado por um forte mudança de perfil. Até o início do ano passado, diz o executivo, 70% das vendas estavam atreladas a monitores de tubo, o chamado CRT. Os demais 30% comprados foram modelos com telas de cristal líquido (LCD). 'Hoje essa realidade se inverteu. E até o fim do ano que vem não devemos mais fabricar monitores baseados em tubo.'
As projeções para este ano são de que o mercado compre 5,7 milhões de monitores LCD, diz Benegas, contra 1,7 milhão de equipamentos CRT.
Assim como acontece com a AG Neovo, o crescimento do setor de informática também mexe com os planos da Creative Labs, uma das maiores fabricantes de acessórios de computador em todo o mundo. Até agora a companhia de Cingapura fabrica seus equipamentos em diversos países da Ásia e exporta para o Brasil. Esse cenário, porém, pode mudar no curto prazo. 'Nunca vivemos um momento no país tão interessante quanto o atual', comenta o gerente da Creative Labs para o Brasil, Gustavo Morais. 'Há sim estudos em curso para ter uma produção local.'
Todo mês executivos da matriz da Creative Labs têm passado pelo Brasil para ver de perto as operações, diz Morais. O executivo evita dar detalhes, mas afirma que Manaus seria um possível destino da companhia.
Indústria de acessórios surfa na boa onda do mercado de PCs
Até um ano e meio atrás, o jovem Alan Jeff, 29 anos, gastava seu tempo atuando como representante de vendas para importadoras de acessórios de informática. Foi apenas um vendedor por muito tempo, até que, de 2005 para cá, vendo o crescimento acelerado do mercado de PCs, decidiu ser algo mais. 'A demanda estava crescendo muito, eu precisava fazer alguma coisa.'
No ano passado, Jeff conheceu os executivos da SimpleTech, uma empresa da Califórnia, fabricante de discos rígidos (HD, na sigla em inglês) externos. Rapidamente fechou um acordo com os americanos, montou a importadora Buy Digital e começou a trazer para o Brasil os HDs da SimpleTech, uma família de acessórios sofisticados, com design assinado pela italiana Pininfarina, a mesma empresa que desenha os modelos da Ferrari, Jaguar e Maserati. Começou sozinho, importando 150 HDs externos. Hoje tem 12 funcionários, traz 800 peças por mês ao país e vende os produtos em lojas como Kalunga e Submarino. 'Vamos faturar R$ 8 milhões nesse ano. Queremos dobrar esse número no ano que vem.'
É a boa fase vivida pela indústria de computadores no país o que tem inspirado iniciativas com como a do jovem Alan Jeff, ou mesmo estratégias mais ousadas, de empresas que há décadas fabricam e vendem acessórios de informática no país. Os números do setor falam por si. Em 2004, o Brasil comprou 4,1 milhões de máquinas, entre micros de mesa e notebooks. Dois anos depois, com a aplicação das medidas como a 'lei do bem', que desonerou a indústria, o país adquiriu 7,1 milhões de computadores.
Neste ano, segundo a empresa de pesquisas IDC, calcula-se que o mercado consuma pelo menos 8,5 milhões de unidades. A reboque desse movimento vem uma parafernália de acessórios - webcams, mouses e teclados ópticos, pen drives, fones, microfones, roteadores, estabilizadores etc. -, uma categoria de produtos que, segundo o coordenador de marketing da brasileira Clone, Dennis Brach, vive um momento sem precedentes no país. Até um ano e meio atrás, diz ele, a Clone concentrava a fabricação de seus periféricos em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Para ampliar a produção, se mudou para Varginha, em Minas Gerais. 'Hoje temos 400 pessoas trabalhando na fábrica. Recentemente tivemos que entrar no terceiro turno', diz Brach. 'A fábrica não fica parada um segundo.'
Até mesmo empresas como a Microsoft, majoritariamente reconhecida pela venda de software, tem aproveitado a boa onda dos periféricos. Apetrechos como câmeras de vídeo, teclados e mouses são fabricados por terceiros na China e vendidos com a marca Microsoft no Brasil. Segundo a gerente de marketing para produtos de varejo da Microsoft Brasil, Renata Rocha, entre os anos fiscais 2005 e 2006 a subsidiária experimentou um crescimento de 82% nessa divisão.
O crescimento do varejo no mercado de informática vem causando reviravoltas no setor. Até pouco tempo atrás, quem quisesse comprar um PC tinha que ir até o balcão de uma loja especializada ou de pequenos montadores. Com a chegada dos computadores às gôndolas dos supermercados e às lojas de eletroeletrônicos, boa parte dessas revendas passaram a vender apenas acessórios ou, em última instância, máquinas de grande porte. 'O consumidor final entrou de vez no mercado e mudou a realidade das empresas', avalia o gerente de produtos de varejo da D-Link Brasil, Wilson Barbosa.
A própria D-Link é um bom exemplo dessa mudança. Em 2002, a companhia de Taiwan, especializada em produtos para conexão sem fio à internet, faturou cerca de US$ 3 milhões com vendas para usuários finais e pequenos escritórios. 'Hoje nossa divisão fatura US$ 70 milhões no Brasil', comenta Barbosa. 'Há quatro anos o varejo representava 5% dos negócios da D-Link. Agora atinge 35% da nossa operação.'
Nesse vale-tudo para atrair a atenção do consumidor, a indústria dos acessórios segue de olho nos modelos de máquinas lançados pelos principais fabricantes de PCs, e tenta se adaptar às tendências de consumo. Na chinesa Mtek, por exemplo, que fornece diversos acessórios para empresas como Itautec, Lenovo e Positivo Informática, praticamente não se fabrica mais teclados na cor branca, conta o gerente comercial da empresa no Brasil, Roberto Moreira. 'Há pouco tempo quase não se via teclado preto no mercado. Agora ninguém mais quer saber de outras coisa', comenta. 'De cada 100 teclados que vendemos, 99 são de cor preta.' Em 2004, a Mtek importou 800 mil teclados para o Brasil. Nesse ano, vai trazer o dobro dos acessórios.
Os fabricantes de acessórios para controle de picos e falta de energia - estabilizadores e no-breaks - também têm aproveitado a boa safra. A brasileira TS Shara, que faturou R$ 46 milhões em 2006, projeta um crescimento superior a 40% neste ano. Nos próximos dois anos, diz o presidente da companhia, Pedro Saker, serão investidos R$ 5 milhões na empresa. 'Hoje a nossa capacidade de produção é de 115 mil peças por mês, mas vamos dobrar esse volume até 2009.'
Para brigar de frente com empresas como a TS Shara e a também brasileira SMS, uma das maiores do país na fabricação de equipamentos para controle de energia, a americana APC também pretende ampliar as suas ofertas para o consumidor final. 'É uma prioridade', diz o presidente da APC Brasil, Milton Silva. 'Há dois anos nossa companhia praticamente não existia para o varejo. Hoje esse mercado já responde por 25% dos negócios e a curva é de crescimento.'
Com fabricação no Brasil desde 2002, a APC concentra 180 funcionários em sua unidade de Alphaville, na Grande São Paulo. Nos últimos dois anos, diz o presidente da subsidiária, a venda de estabilizadores e no-breaks cresceu a taxas anuais de 30%, média que deve se manter. Neste ano em que o mercado comprará quase 9 milhões de computadores, a expectativa é de que 4,6 milhões de acessórios para controle de energia sejam adquiridos. Não falta espaço para crescer.
Fonte: Valor
